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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Mini-conto IV

Cisplatina

Queria invadir o Uruguai para se apoderar das fábricas de doce de leite. Ficou preso na aduana, porque levava cortes de carne gaúcha para o país vizinho.

E voltou a Porto Alegre sem saber que a carne uruguaia é melhor que a brasileira. Morreu esses dias, engasgado com uma colherada de Lapataia.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Latitude


Cheguei em São Paulo e perguntei qualquer coisa:

- Oi, você é de Curitiba?
- Não, na real sou de Pooorto. - respondi eu, com um sotaque do Bom Fim que nem eu sabia que tinha.

Parece que se eu falar pra alguém do Centro do país, via telefone, que sou de Porto Alegre, a coisa sairia assim:

- Sim, sim, de Porto. Não Florianópolis, Porto Alegre. Isso, perto de Gramado... como "onde"? No Rio Grande do Sul, tchê! Nããão, Curitiba é Paraná. Floripa é Santa Catarina. É abaixo de Santa. Acima do Uruguai. Olha... Montevidéu é a capital do Uruguai, é acima disso. Abaixo de Gramado. Não, não é terra de chocolates, nem Serra. Porra, nós estamos na beira do Guaíba! Um rio... bom, não é um rio, é um estuário... a terra do Inter e do Grêmio! O Inter, de Gramado? O Grêmio, de Montevidéu? Pirou, né? Doce de leite? Cara, lá a gente come Mu-mu, desculpe!

E assim segue a gana de o pessoal querer se separar do Brasil.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Vai ser gauche na vida...

Foi Drummond que escreveu a frase do título, né? Chato pra caralho!

Pois nasci em Porto Alegre, tchê! Fui criado no complexo de bairros populares (gurizada de classe média baixa, média e alta; eu era/sou da casta média) Rubem Berta, limite com Alvorada. Até os 7 anos vivi no Leopoldina, e depois até os 14 no sub-bairro à frente, o Santa Fé. Se esse distrito gigante se separasse, dava uma cidade razoavelmente populosa e pobre.

Separatismo que está ligado ao DNA do gaúcho. Diferentes razões nos levaram a tentar uma separação do resto do Brasil. Impostos nos tempos do Império, interesses de estanceiros maçons que tinham terra no Uruguai, num tempo em que Rio Grande do Sul e o país vizinho eram quase a mesma bosta, diferenças culturais, bairrismo, preconceito e nariz empinado.

A publicidade se vale bastante do gauchismo. Fôlderes e campanhas na TV e na Internet enaltecem o orgulho pelas coxilhas e pelo meu pampa, pelos costumes/cultura e pelo sotaque adotado abaixo do Mampituba. E vendem bastante fingindo que são mais sulistas do que sua razão social pode sugerir.

É um terreno quase sagrado. É, na real: experimenta dar uma de fiasquento e falar mal do RS num Acampamento Farroupilha! Tu vira carne de churrasco.

O Gaúcho é um sujeito que se veste de uruguaio e francês, fala Português (mas que nem argentino), toma bebida italiana e vai a festas alemãs. Isso tudo num momento só. Com tanta mistura, parece limitado que usemos como música tradicional esse som de CTGs, que é um estilo que já sobrevive por si só, sem necessariamente fazer apologia a tradições. Nenhuma das músicas é cantadas em Espanhol, todas sem referências açorianas ou charruas ou colocadas de maneira tímida como china virgem. Frescura minha, eu sei.

É que essa alma castelhana é algo implantado pela Literatura. O gaúcho clássico deve a guaiaca a Simões de Lopes Neto, criador do eterno Blau Nunes, personagem que absorveu TODOS os valores atribuídos ao guasca médio. A folia projetada em volta de peões mestiços é grande demais. Passou dos limites do lógico. Mesmo sendo uma nação criada por índios desgarrados, negros, castelhanos perdidos, paulistas, italianos e alemães, com ou sem as virtudes propagadas pelas planícies do Sul, achamos ainda que somos só uruguaios. Isso mostra o quanto nosso orgulho é vazio na essência, apesar de ser divertido o facto de vermos a América de cabeça pra baixo.

Infelizmente, meu estado não está entre os mais desenvolvidos economicamente. Somos dependentes da força motriz do centro do país. E é por isso que se engana feio quem acha que sobreviveríamos autossuficientes numa utópica República do Pampa. O que julgamos roupa típica (a pilcha, composta por botas, bombacha, camisa, poncho no inverno, lenço e chapéu), é fantasia. Pro camponês uruguaio, é roupa de trabalho.

Dizem que o RS é o estado que mais lê. Olha, sou professor no interior e posso dizer que se essa estatística tem fundamento, temo pela quantidade de iletrados em outros estados. Cantamos em altos brados um hino que fala de uma luta de burgueses vs. Império e que acabou em empate: ninguém venceu, ninguém perdeu; a Revolução Farroupilha parou depois de um acordo.

Então, quando eu lembro do subúrbio da capital, que carrega um sotaque intermediário entre o interiorano e o bonfinesco, saco que cantamos de um jeito e nos imitamos de outro. Falamos tchê e bah!, mas as nuances de vocabulário e entonação nos diferenciam entre nós mesmos, por mais que o estereótipo tente uniformizar.

Se eu gosto do Rio Grande do Sul? Sim, sim, mas hoje mais pelo fato de lembrar seus irmãos culturais, o Uruguai e a Argentina. Como se fôssemos um pedacinho platino em pleno ziriguidum olelê tupiniquim.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O inverso do contrário


Exactamente: o título é só para parecer um texto metido a besta. No fundo, é, mas de uma maneira inversa. Entendeu?

Provavelmente, você está comendo super bem agora, lendo isso aqui e pensando. Seu prato de boia choca deve ter uma vistosa polenta rançosa com queijo e carne de segunda, mas tudo com molho guardado há uma semana no congelador de sua velha Frigidaire. Mas eu, camarada, quando me botei a pensar sobre minha segunda viagem pelos Pampas, estava em situação mais desagradável.

Passeei muito bem acompanhado por 15 dias vendo como uruguaios e argentinos se comportavam frente a um portunhol avançado. Deu tudo certo... e eu quero é me focar no último dia. Poupo-lhe por hora dos outros.

Eu tava meio cansado naquela manhã em Rivera. Dormi mal no motel da Uruguaia (deve ser esse o nome da bruxa dona do bolicho), com cheiro de alcatrão e nicotina, gente gemendo e música do Zezé de Camargo em volume considerável. Sem café da manhã, marchei com 40 pila e saí de Santana do Livramento para a cidade-irmã. Comprei umas coisinhas de homem: bebidas, comidas, temperos para churrasco, doce de leite, cigarros e diversão. E fomos para a praça central comer algo, porque tínhamos bilhões de quilômetros de estradas nojentas até Porto Alegre.

Cheio de pacotes, mais parecendo algum novo-rico se locupletando em Buenos Aires, avistamos umas 3 carrocinhas de pancho. Cabe a explicação. O pancho é a versão hermana para um alimento comum nas ruas de nosso estado. Não falo do gauchíssimo xis. Sim... o cachorro-quente!

Sou perseguido por isso. Devo ter sacaneado bonito alguma oferenda de algum pobre em alguma esquina de algum bairro popular desse Brasilzão. Uns dias antes, havíamos enchido a barriguinha próximo à avenida principal de Montevidéu, num evento que marcou uma inesquecível matação de fome oficial no país de baixo. Mas essa vez em Rivera tinha um plus: a proximidade com o Brasil. Perigo!

Sentei, posicionei as compras perto para proteger (eu tava perto do Brasil, lembra?) e veio a garçonete. A negaveia pediu um chivito (=xis com frescura) e eu, um pancho quase completo, sem catchup e sem mostarda.

Ela não anotou. Foram dos 2 pedidos boiando na cachola da criatura.

Quando chegou, vi algo amarelo-vivo saindo do pancho...

- Ô, minha tia... puxa, eu pedi sem mostarda...
- Ah, tá... peraí, que eu vou trocar.


Custava ter anotado, né? Mais uns minutos de terror, fome e desespero. Chega um uruguacho:

- Hola, amigo, quieres meias?
- No, camarada, solo quiero comer!
- Que eso, no necesita brigar... somos todos amigos, hã?


Veio de novo o pancho. Dei uma abridinha e tava tudo vermelho. Catchup. Aí, né, já deu ataque de bichice, fiquei de beiço, cara de num quéio e quase estraguei o almoço da outra.  
Senti vontade de enfiar o raio da comida nas fendas íntimas das empregadas do estabelecimento. Fiz questão de parecer incomodado, levantei e fui na concorrência.

- Por favor, quero um pancho assim, ó...


Esqueci de pedir para não usar um litro de óleo na prensa, mas foi bom. 
Foi melhor ainda porque me embestei a comê-lo nas dependências do cachorro de mostarda. 

Qual a lição que tirei disso? Nunca confiar em hotdogs? Não... talvez tenha sido a de que mesmo que você sapateie e demonstre indignação contra o Sistema, ele sempre vai dar um jeito de continuar aloprando para cima do cidadão comum. Isso mesmo quando sua briga é só por não querer mostarda no pancho.