segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mini-conto III

La cuadra negra


Ela se encantou com a ideologia e movimento do Black Block. Um dia, participou de uma manifestação. Destruíram a fachada e os caixas eletrônicos do Itaú, porque o banco representa o que há de mais maléfico em termos de Capitalismo opressor de povos emergentes.

Meses depois, descobriu que estava grávida. O pai era do mesmo movimento. As famílias obrigaram os dois a casar, caso contrário não haveria facilidades pra eles. Precisavam de um lugar pra morar, coisas pro nenê vindouro...

O sogro da menina lhes concedeu um empréstimo. Ele era gerente adivinhe de qual banco?

Viveram felizes, mas cheios de culpa, para sempre.

Mini-conto II

Azul tipo o mar


Gremista modelo de ferocidade. Renunciou à Medicina no Brasil por não suportar ver a cor do sangue. 

Foi pra Inglaterra tentar tratar da Realeza.

Mini-conto I

Rojo hasta la muerte


Tão colorado, ele...

Um dia, num ato bobo e instintivo, olhou pro céu durante o dia. Estava nublado e cinza, por sorte. O ataque cardíaco não foi fulminante.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Oitenta



Com algum esforço, consegui tirar a quase dezena de caixas de papelão que sobrepunham a caixa que eu queria: a das fotos. É, poderiam, esses retratos, estar em um lugar melhor que algo que seja de papel. Mas mesmo assim é ali que estavam, debaixo de alguns quilos de documentos e outros badulaques, os registros da vida da minha família.

Comecei a abrir álbum por álbum, a maioria datado da década de 80. Sabe, tem aquela coloração já quase violeta, detalhes granulados e cheiro forte. Fotos pequenas, dos antigos rolinhos Kodak, com o mês e ano da revelação impressos no cantinho.

Era véspera de aniversário; eu estava fazendo 24 anos. Aquilo batia forte... puxa, daqui a um ano, terei um quarto de século de vida. E mais 5, terei trintão! Para quem tem mais que isso é normal rir da cara de quem é mais novo, arrotando experiência. Eu mesmo faço isso quando converso com criaturas mais novas, como se isso desse um valor inestimável a cada frase e entonação proferidas por gente mais vivida.

Quando vi os brinquedos com os quais posei nas minhas fotos, chorei. Tá, não foi um choro fiasquento e piegas. Com o quarto tendo seu ar impregnado com o odor de coisa guardada e música dos oitentistas indo direto nos meus ouvidos, fiz com que a lágrima que insistia em sair do olho direito não tivesse obstáculos. Era uma lágrima sincera, chorada por um sujeito que tem em sua infância um porto seguro a cada vez que se sente acuado num mundo louco como o de hoje.

O tempo passa rápido demais. Sinto a cada dia que a frase “nossa, como passou rápido esse ano...” dita com espanto ao final de 365 dias não é nada imprevisto. O tempo passa, mesmo, rápido demais! Não é exclusividade desse ou daquele ano. E o bolo de aniversário vai ficando pequeno para tanta vela.

Passei por péssimos meses pensando que estava ficando velho e inútil. Ou eu passaria toda minha vida pensando isso e me amargurando ou dava um jeito de engolir em seco e pensar no saudável “ah, dane-se!” que temos de usar diariamente. Quando eu já estava quase conseguindo me convencer que 25 anos seria só um rito de passagem, resolvi questionar uma pessoa com mais cancha que eu:

- Pai, tu acha que o tempo passa muito ligeiro?
- Hmmm... SIM!
- Putz... hã, então, tipo... desde que eu nasci, tu acho que foi muito rápido?
- Hmmm... SIM!
- Ah, meu Deus...

É isso aí! Se é pra ficar velho, que seja para ganhar essa manha de ser rasteiro nas respostas e lúcido para sanar as dúvidas e “tranqüilizar” os mais novos.  

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Latitude


Cheguei em São Paulo e perguntei qualquer coisa:

- Oi, você é de Curitiba?
- Não, na real sou de Pooorto. - respondi eu, com um sotaque do Bom Fim que nem eu sabia que tinha.

Parece que se eu falar pra alguém do Centro do país, via telefone, que sou de Porto Alegre, a coisa sairia assim:

- Sim, sim, de Porto. Não Florianópolis, Porto Alegre. Isso, perto de Gramado... como "onde"? No Rio Grande do Sul, tchê! Nããão, Curitiba é Paraná. Floripa é Santa Catarina. É abaixo de Santa. Acima do Uruguai. Olha... Montevidéu é a capital do Uruguai, é acima disso. Abaixo de Gramado. Não, não é terra de chocolates, nem Serra. Porra, nós estamos na beira do Guaíba! Um rio... bom, não é um rio, é um estuário... a terra do Inter e do Grêmio! O Inter, de Gramado? O Grêmio, de Montevidéu? Pirou, né? Doce de leite? Cara, lá a gente come Mu-mu, desculpe!

E assim segue a gana de o pessoal querer se separar do Brasil.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Vai ser gauche na vida...

Foi Drummond que escreveu a frase do título, né? Chato pra caralho!

Pois nasci em Porto Alegre, tchê! Fui criado no complexo de bairros populares (gurizada de classe média baixa, média e alta; eu era/sou da casta média) Rubem Berta, limite com Alvorada. Até os 7 anos vivi no Leopoldina, e depois até os 14 no sub-bairro à frente, o Santa Fé. Se esse distrito gigante se separasse, dava uma cidade razoavelmente populosa e pobre.

Separatismo que está ligado ao DNA do gaúcho. Diferentes razões nos levaram a tentar uma separação do resto do Brasil. Impostos nos tempos do Império, interesses de estanceiros maçons que tinham terra no Uruguai, num tempo em que Rio Grande do Sul e o país vizinho eram quase a mesma bosta, diferenças culturais, bairrismo, preconceito e nariz empinado.

A publicidade se vale bastante do gauchismo. Fôlderes e campanhas na TV e na Internet enaltecem o orgulho pelas coxilhas e pelo meu pampa, pelos costumes/cultura e pelo sotaque adotado abaixo do Mampituba. E vendem bastante fingindo que são mais sulistas do que sua razão social pode sugerir.

É um terreno quase sagrado. É, na real: experimenta dar uma de fiasquento e falar mal do RS num Acampamento Farroupilha! Tu vira carne de churrasco.

O Gaúcho é um sujeito que se veste de uruguaio e francês, fala Português (mas que nem argentino), toma bebida italiana e vai a festas alemãs. Isso tudo num momento só. Com tanta mistura, parece limitado que usemos como música tradicional esse som de CTGs, que é um estilo que já sobrevive por si só, sem necessariamente fazer apologia a tradições. Nenhuma das músicas é cantadas em Espanhol, todas sem referências açorianas ou charruas ou colocadas de maneira tímida como china virgem. Frescura minha, eu sei.

É que essa alma castelhana é algo implantado pela Literatura. O gaúcho clássico deve a guaiaca a Simões de Lopes Neto, criador do eterno Blau Nunes, personagem que absorveu TODOS os valores atribuídos ao guasca médio. A folia projetada em volta de peões mestiços é grande demais. Passou dos limites do lógico. Mesmo sendo uma nação criada por índios desgarrados, negros, castelhanos perdidos, paulistas, italianos e alemães, com ou sem as virtudes propagadas pelas planícies do Sul, achamos ainda que somos só uruguaios. Isso mostra o quanto nosso orgulho é vazio na essência, apesar de ser divertido o facto de vermos a América de cabeça pra baixo.

Infelizmente, meu estado não está entre os mais desenvolvidos economicamente. Somos dependentes da força motriz do centro do país. E é por isso que se engana feio quem acha que sobreviveríamos autossuficientes numa utópica República do Pampa. O que julgamos roupa típica (a pilcha, composta por botas, bombacha, camisa, poncho no inverno, lenço e chapéu), é fantasia. Pro camponês uruguaio, é roupa de trabalho.

Dizem que o RS é o estado que mais lê. Olha, sou professor no interior e posso dizer que se essa estatística tem fundamento, temo pela quantidade de iletrados em outros estados. Cantamos em altos brados um hino que fala de uma luta de burgueses vs. Império e que acabou em empate: ninguém venceu, ninguém perdeu; a Revolução Farroupilha parou depois de um acordo.

Então, quando eu lembro do subúrbio da capital, que carrega um sotaque intermediário entre o interiorano e o bonfinesco, saco que cantamos de um jeito e nos imitamos de outro. Falamos tchê e bah!, mas as nuances de vocabulário e entonação nos diferenciam entre nós mesmos, por mais que o estereótipo tente uniformizar.

Se eu gosto do Rio Grande do Sul? Sim, sim, mas hoje mais pelo fato de lembrar seus irmãos culturais, o Uruguai e a Argentina. Como se fôssemos um pedacinho platino em pleno ziriguidum olelê tupiniquim.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Livre

Os avisos de "prejudicial à saúde" em bebidas e cigarros é o expoente máximo do que consideramos o livre arbítrio.

"A parada é ruim e faz mal... não estamos obrigando a usar. Tu quer? Bom... avisamos, hein?" E o cidadão vai lá e se afunda nas porcarias. Que estão ali, né? Compra se tu quer.

Por mais que o politicamente correto (já poderíamos escrever isso com letras maiúsculas, visto que é uma instituição) tente argumentar que o ser humano é um bom selvagem corrompido pelo Sistema, o cara ainda tem a chance de dizer 'não' pra alguma coisa.


Escrito sob efeito de uma Estrella Galicia geladíssima.