terça-feira, 26 de novembro de 2013

Mini-conto VI

Curetagem

Jocele deciciu tornar-se vegetariana, depois de ver um vídeo onde porcos são chutados e agredidos até a morte. Vegana, melhor dizendo. Pesquisou alimentos que não levavam partes de animais e iniciou rígida patrulha entre amigos até que uma parte razoável desses se tornasse adepta de sua filosofia.

Um dia, a guria passou mal. Foi-lhe recomendada uma carga de polivitamínicos, para compensar a falta de ingestão natural de determinadas vitaminas e nutrientes. Passou um ano tomando. Ficou ótima.

Mas dia desses parou no hospital, em estado de choque, depois que descobriu que deveria ter pesquisado melhor sobre remédios testados em bichos.

Mini-conto V

 Toda manhã

Postava todo dia dicas de como sorrir e ser feliz num mundo áspero.

Um dia, casou, teve filhos e uma série de contas a pagar.

Mini-conto IV

Cisplatina

Queria invadir o Uruguai para se apoderar das fábricas de doce de leite. Ficou preso na aduana, porque levava cortes de carne gaúcha para o país vizinho.

E voltou a Porto Alegre sem saber que a carne uruguaia é melhor que a brasileira. Morreu esses dias, engasgado com uma colherada de Lapataia.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mini-conto III

La cuadra negra


Ela se encantou com a ideologia e movimento do Black Block. Um dia, participou de uma manifestação. Destruíram a fachada e os caixas eletrônicos do Itaú, porque o banco representa o que há de mais maléfico em termos de Capitalismo opressor de povos emergentes.

Meses depois, descobriu que estava grávida. O pai era do mesmo movimento. As famílias obrigaram os dois a casar, caso contrário não haveria facilidades pra eles. Precisavam de um lugar pra morar, coisas pro nenê vindouro...

O sogro da menina lhes concedeu um empréstimo. Ele era gerente adivinhe de qual banco?

Viveram felizes, mas cheios de culpa, para sempre.

Mini-conto II

Azul tipo o mar


Gremista modelo de ferocidade. Renunciou à Medicina no Brasil por não suportar ver a cor do sangue. 

Foi pra Inglaterra tentar tratar da Realeza.

Mini-conto I

Rojo hasta la muerte


Tão colorado, ele...

Um dia, num ato bobo e instintivo, olhou pro céu durante o dia. Estava nublado e cinza, por sorte. O ataque cardíaco não foi fulminante.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Oitenta



Com algum esforço, consegui tirar a quase dezena de caixas de papelão que sobrepunham a caixa que eu queria: a das fotos. É, poderiam, esses retratos, estar em um lugar melhor que algo que seja de papel. Mas mesmo assim é ali que estavam, debaixo de alguns quilos de documentos e outros badulaques, os registros da vida da minha família.

Comecei a abrir álbum por álbum, a maioria datado da década de 80. Sabe, tem aquela coloração já quase violeta, detalhes granulados e cheiro forte. Fotos pequenas, dos antigos rolinhos Kodak, com o mês e ano da revelação impressos no cantinho.

Era véspera de aniversário; eu estava fazendo 24 anos. Aquilo batia forte... puxa, daqui a um ano, terei um quarto de século de vida. E mais 5, terei trintão! Para quem tem mais que isso é normal rir da cara de quem é mais novo, arrotando experiência. Eu mesmo faço isso quando converso com criaturas mais novas, como se isso desse um valor inestimável a cada frase e entonação proferidas por gente mais vivida.

Quando vi os brinquedos com os quais posei nas minhas fotos, chorei. Tá, não foi um choro fiasquento e piegas. Com o quarto tendo seu ar impregnado com o odor de coisa guardada e música dos oitentistas indo direto nos meus ouvidos, fiz com que a lágrima que insistia em sair do olho direito não tivesse obstáculos. Era uma lágrima sincera, chorada por um sujeito que tem em sua infância um porto seguro a cada vez que se sente acuado num mundo louco como o de hoje.

O tempo passa rápido demais. Sinto a cada dia que a frase “nossa, como passou rápido esse ano...” dita com espanto ao final de 365 dias não é nada imprevisto. O tempo passa, mesmo, rápido demais! Não é exclusividade desse ou daquele ano. E o bolo de aniversário vai ficando pequeno para tanta vela.

Passei por péssimos meses pensando que estava ficando velho e inútil. Ou eu passaria toda minha vida pensando isso e me amargurando ou dava um jeito de engolir em seco e pensar no saudável “ah, dane-se!” que temos de usar diariamente. Quando eu já estava quase conseguindo me convencer que 25 anos seria só um rito de passagem, resolvi questionar uma pessoa com mais cancha que eu:

- Pai, tu acha que o tempo passa muito ligeiro?
- Hmmm... SIM!
- Putz... hã, então, tipo... desde que eu nasci, tu acho que foi muito rápido?
- Hmmm... SIM!
- Ah, meu Deus...

É isso aí! Se é pra ficar velho, que seja para ganhar essa manha de ser rasteiro nas respostas e lúcido para sanar as dúvidas e “tranqüilizar” os mais novos.