sexta-feira, 28 de maio de 2010

O negócio é não ser um bundão cult

Fomos direto pra casa do Costela com as gurias, sem elas saberem que não haveria a tal pizza que combinamos. Azar delas: dava pra ver na nossa cara que havia alguma coisa de errado com a possível imagem de cordeiros que devem ter feito de nós.

Se bem lembro, eram 6 caras e 4 meninas. Costela já estava com sua meio-namorada; essa não contava. Sobraram 3 moças e 5 cidadãos famintos. Quando as luzes da sala se apagaram, após um verdade-ou-consequência do inferno, uma delas, gêmea gata de outra, já tinha caído nas ricas graças do mais chatito do grupo, o cão matreiro Técnico. Logo, a outra se bandeou com Rodrigo para o andar de baixo da casa.

Ficaram eu, Fúlvio, o dono do Fusca que nos carreteou até a casa e uma menina um tanto quanto lado B, a Bebel. Na cabeça e no físico.

- Tá, Marat, vai pegar ali ou não, porra?
- Sossega... tá na mão pra mim.
- Então vai logo, que senão eu vou!


Fúlvio não era de perder tempo. As luzes apagadas, os guris zanzando nervosos em volta como moscas na merda e eu sentado no braço do sofá, como um palerma esperando a droga da timidez me deixar fazer em paz as coisas que eu curto nessa porra de vida. E Bebel ali, paradita, pensando decerto "caceta, mas só tem cria nessa casa...".

Eu havia conversado com ela uns dias antes num posto de gasolina. Enquanto as gêmeas faziam o escarcéu clássico de meninas com hormônios em polvorosa, Bebel era mais comedida e engatou uma "troca de ideia" de quem, de fato, quer conhecer o oponente.

É nessas conversas em que acabamos sempre caindo no gosto musical da pessoa. E para mim isso é quesito eliminatório. Mas eu tenho a sorte grande desse mundo e sempre papeio com mulheres oriundas de ambientes esnobes. Arrota-se fino caviar quando come-se melequentas sementes de mamão.O legal não é dizer que gostam de Beach Boys... não, eles são muito bregas! O tri mesmo é catar lá do universo paralelo alguma banda desconhecida e adorá-la justamente por ser desconhecida, pouco importando se é boa ou não. Tem é que ser diferente.

Muito chato isso. Numa conversa, sempre estaremos com a impressão de estar aprendendo (o que é bom) com a pessoa errada e mais chata do pedaço (o que é enfadonho). Sim, acontece com meninas isso, principalmente em se tratando de fêmeas da capital.

- Eu curto muito Suburban Kids With Biblical Names... nossa, muito massa! E tu, Marat?
- Olha, tchê... tô ouvindo ultimamente Eric Carmen...
- Ui, credo!


Creio piamente na teoria que um ser humano chega a um nível tal de cultismo que ignora as coisas mais farofas que há no mercado fonográfico mundial. Ou arranjam alguém que sempre foi um bosta e resolvem erguê-lo à condição de mestre ou poeta mal compreendido. Bundões! É gente que não tempera a porcaria da massa Miojo com o tempero artificial clássico, por achar esse negócio padrão demais.

No caso específico de Bebel foi até tranquilo. Batemos os gostos de cara e ela estava "pré-trovada" para a noite da casa do Costela. Baseado nesse preceito besta, lá fui eu testar minha terrível timidez, já citada. Os guris pressionando, eu querendo a Bebel e ela me querendo. A silhueta de seu crânio de cabelos desarrumados, mas presos, estava sob efeito da luz da rua, num efeito cafona e convidativo. Eis que o brilhante poeta aqui teve a louvável ideia de se expor da maneira mais estudada, arrebatadora e que provava todo um estudo até então. Dei no meio mesmo:

- E aí... Bel... que tal a gente ir prum cantinho?
- É, legal... onde?
- Ali, naquele sofá!

Gênio.

Funcionou, óbvio. Ficamos nos enrolando durante HORAS e foi tudo bem...

... ou não. Saldo da noite: Rodrigo viu sua gêmea mijando no pátio da casa, Técnico disse que comeu umas 3 vezes a outra (eu não vi, deixo bem claro), Costela farunfou sua menina e eu sai com os dedos com o cheiro agridoce da intimidade de Bebel. Tomamos um café na casa do beleza e aí que eu me liguei o odor de minhas mãos parecia... látex. Porra (literalmente, talvez)!

Oh, sim, ia esquecendo: as gêmeas levaram uns discos do Costela emprestados para sempre e achei Bebel, anos depois, vestida de tal maneira masculina que fiquei preocupado com minha reputação ao titubear entre um beijo na bochecha ou um aperto de mãos.
A banda que nos uniu? Hoje, até acho ela meio bundona, mas gosto dessa merda.

sábado, 22 de maio de 2010

Bebeco Garcia não morreu. É sério!

O facto é que um maldito tumor encerrou a vida de Bebeco Garcia, amigo nosso. Bem eu o disse: a vida. A obra estará viva, graças à tecnologia, com vídeos, discos e imagens diversas. E estará dando a cor vinho de seu paletó aos violões chorosos que, alegre e paradoxalmente, soarem pelas ruas das cidades.

Claro que é pieguice absoluta falar de alguém já morto e enaltecer sua vida. Então, como achar detalhes da vida do homem é barbada, bastando procurar no Google, digo que quase chorei ao ouvir "Tô de saco cheio". Não, talvez não tenha sido por isso.

Talvez seja porque eu, na segunda música do show que fizemos juntos, Desvio Padrão e Bebeco, eu tenha olhado para o lado e pensado: "Puta merda, esse véio fez as músicas que eu tocava no violão até poucos 10 anos atrás...".

Morre um ídolo, talvez não tão importante pra mim quanto Cazuza, Renato Russo, McCartney ou Brian Wilson. E nem conheci Chaminé, nem conheço o Fughetti Luz... mas fiquei triste.

Será que, de verdade, as cordas da Flying V de Bebeco pararam de tocar?

Marat diz:
Cara, eu tava pensando nesse negócio do bebeco
meu, te pergunto:
eu quase chorei agora há pouco, ouvindo TÔ DE SACO CHEIO.
É normal isso?

Fábio Fischer diz:
cara, quando eu fiquei sabendo foi tipo "ah, tranquilo", saca?
a daiane morais me contou por msn logo que eu acordei
na hora tranquilo
mas, de noite depois quando eu tava voltando da aula e tal me deu um aperto cara
daí cheguei em casa e ouvi ipanema e tava rodando um som dele atrás do outro
daí eu senti uma dorzinha.
ídolo do cara, e nós tivemos a chance de tocar com o loco duas vezes...
uma lembrança massa que eu tenho dele foi da passagem de som no centro de cultura
os caras mandando baixar o volume e ele puto da cara: "rock tem que tem pressão, tem que ter pressão" ahahah

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Provas de amor

- Sabe o que é, Marat... eu queria que ele olhasse mais para mim...
- Bah, mas logo ELE? Sério, o Tiago é um bundão profissional! É o tipo de jumento que se tu mostrar uma porcaria de uma garrafa térmica e disser "bem, Tiago, essa droga é uma térmica... o que é isso, Tiago?", é capaz de pensar duas vezes antes de responder...
- Ai...
- E ia errar, ainda!
- Ai, Marat... ele é legal...
- Bã... super!
- Ele é bonito, simpático e me diz umas coisas...
- Ele é meio metido é plêiba, né? Já vi esse malandro desfilando com um Golf-de-som, com música eletrônica nas alturas... chato pra caralho! É um cretino de mau gosto que logo, logo vai aparecer com um adesivo escrito Tiago & Fulaninha no vidro traseiro. Depois, toma chifre e não sabe o porquê: até o nome da namoradinha tá escancarado ali, pra facilitar o ataque dos lobos...
- Ai, gosto não se discute...

(momento de tensão. Gosto não se discute? Como assim?)

- O fato, Kelly, é que atrair a atenção desse tipo de animal é meio perda de tempo. Tipo, é um cara que, de tão inútil, ia precisar de alguém muito inteligente ao lado.
- Tu tá dizendo que eu sou burra?
- Não exatamente. Mas tu daria o que em troca pra ele?
- Ai, né... coisas de mulher.
- Eu sei. E no teu caso deve ser uma delícia, com todo respeito.
- Brigada... mas ó: ah, eu daria carinho, mas quero um homem legal, bonito, que saiba conversar, seja trabalhador...

- Basicamente, tudo o que o Tiago não é. Mas vou defendê-lo. Kelly, o homem quer mais que um corpo bonito, mesmo que isso tu tenha de sobra. E dizendo que daria carinho pra ele fica parecendo um jornal desses novos, em que tudo é no futuro do pretérito...
- Quê?
- Esquece. Um cara quer uma mulher inteligente e simpática, pois mulher para transar tem por tudo aí.
- É?
- É. E quer uma mulher que não o faça esperar para ficar arrumada. É o tipo de coisa que dá no saco e torra a mísera paciência que o machaiêdo tem. E que não peça as malditas provas de amor! Tu pede essas porras?
- Claro, né?! Tem que mostrar que me ama.
- Pois é. Tá errado isso. Mulher é craque em descobrir direitinho a atividade ou gosto que mais agrada ao cara. E dá um jeito de foder com isso. Às vezes, as provas de amor, do tipo "ah, tu me ama? Então, prova!", são só um posicionamento nojento que faz uma pessoa se obliterar ou anular em prol do maldito ego de outra.
- É, acho que tu tem razão...
- Tenho, sim, Kelly. Se tu for esperta, até vai sair com o Tiago, embora eu não recomende. Mas faça com que ele se sinta livre para poder curtir ao teu lado. Um cara só quer dividir os momentos bons com as gurias.
- Tu é um amigão, viu? Deixa comigo, que eu vou levar em conta tudo o que tu disse. Entendi tudinho!
- Eu sei... ó, lá vem o dito cujo. E vem numa marra que tá louco...
- Disfarça, disfarça...
- Opaaa! Belezêra, Marat? E aí, Kelly? Firmeza? Seguinte, guria, vâmo dar um rolé com meu Golf? Meti um bicho-papão de 15 polegadas e tá uma sonzêra!
- Ai, claro! Não te importa, né, Marat?
- Mmm? Não, que isso, vai lá...
- Tá, Tiago! Podemos passar lá em casa só para eu tomar um banho e trocar de roupa?
- Olha...
- Se tu quiser sair comigo, vai ter que ser assim!
- Ah, claro, sem galho! Bora lá! Vai ter pagodeira no Centro hoje.
- Tchau, Marat! Vê se me liga, hein? Beijos...
- Beijos...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

É, amigo...

Marat chega à casa de Costela para um divertidíssimo "aquéci" antes de a noite de sábado, de fato, começar. Costelinha o recepciona na porta de seu muquifo:

- E aí, porra?! Que que tu trouxe... bah, torpedo de novo, meu?!
- Tomá no teu cu, Costela! Nem pra casar uns R$2,50 tu te presta...
- Tá tri. Mete essa merda na geladeira. Não vamo tomá agora!
- Tem ceva aí?
- Ter, tem, mas é só pra diretoria, hahahah... (abre uma ceva quase na cara do Marat).
- Putz... tu é um merda.
- Fica frio aí, que eu vou... banhar-me.
- Quê, meu?! Tu ainda não tomou banho? Te liguei faz uma hora, porra!
- Shhhhhhh... cale a bôqui! Só não fode com meu Orkut, seu porra!
- HAhahaha... certo que vai rolar um 'bi-curious' no teu perfil e é já!
- Talomierda... (Costela fecha o Orkut e deixa só o Winamp aberto).
- Cara, pelamordideus... corre! O vagabundo sempre se atrasa por tua causa.
- Shhhhhhhh...

(duas horas depois)

- Tá, fica frio que eu vou comer um negócio... comi bosta nenhuma durante o dia todo... ô, Marat, tu tá bebendo cerveja da diretoria???
- Perdeu, preibói!
- Tá tri... vamo bora e vamo secá esse tórps no caminho.
- Já era!
- Tomá no cu...

Marat pensa: "Porra, esse Costela é mesmo um cara bróder. Meu parceiraço!"

Costela pensa: "Tomá no cu..."

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Acho que fizeram um gol...

- Acho que fizeram um gol... vem cá ligeiro!

Bela maneira de encerrar uma mijada. Minha mãe chamando para eu ver um gol. Lógico, era do Barcelona! Até que demorou muito para os desgraçados comandados por Ronaldinho encaçaparem uma. Se tomássemos um só seria lucro.

Mas... como assim, mãe, “fizeram”? Será que ela não se tocou, desde o início da transmissão na TV, que o time de branco era o Inter e o grená, o Barcelona? Enquanto eu sacudia o pinto a respingar pelo vaso e arredores, ficava pensando em qual, diabos, dos times tinha balançado a rede. Mamãe bem que podia ser mais restrita e dizer que foi a equipe de branco ou a grená a ter feito o crime. Certo que era a grená. Era a que estava comemorando, não?

- Não sei... ó, vem cá...

Coisa de gente que não tem mais 20 anos. Não soube distinguir quem comemorava; só faltava essa! Mas gentes velhas têm seu valor em minha vida. Juntando a cueca azul-marinho, que tinha dado sorte na Libertadores, saí do banheiro às pressas, pensando em tudo o que eu passei até chegar aquele momento.

Aos 6 anos, eu já era Colorado e tudo o mais. Crianças gremistas e torcedores do Inter se davam bem. Jogavam bola juntos, andavam de bicicleta e, inocentes, cada uma sabia cantar o hino do clube rival. Era engraçado... um dia cheguei em casa, num desses apartamentos de condomínios da Guerino, em Porto Alegre, cantarolando que o Grêmio tinha sido campeão da América. Meu pai usou a psicologia necessária ao momento:

- Olha aqui, piá: se eu te pegar de novo cantando essa merda, te dou uma porrada!

Depois disso, o coração se tingiu em definitivo de vermelho. Foi nessa época em que ouvi meu primeiro jogo do time, via rádio. Estávamos em cima de um caminhão cretino e velho, eu e todos meus amigos, ouvindo um modorrento Inter e Flamengo, joguinho meia-boca da Copa União...

Cheguei à sala. Meu pai e minha mãe olhavam incrédulos para o televisor. Minha gata dormia no sofá, alheia ao mundo cruel que a rodeava. Criei coragem de olhar para a tela.

- ... Adriano é o nome dele!!!

Não... não. O nome estava errado. O narrador estava redondamente enganado. Esse jogador era do Inter. Ouvi direitinho um apito do juiz: na certa, iria dar impedimento. Claro, era isso. Tava impedido. Ninguém faria um gol no Barcelona de 2006. Sabe, era o mesmo time que não fazia poucos dias que tinha enfiado 4 gols no América do México. Jogavam por música. Todos aqueles clichês estapafúrdios e batidos e previsíveis sobre o futebol-arte... tudo ao mesmo tempo num time só. Juntando isso a uma sorte e um marketing danado, tínhamos, então, o Barça do Deco e do Ronaldinho.


Eu ouvi o jogo contra o América na escola onde dou aula. Meus alunos só diziam “gol... é o quarto do Barcelona”. Um sentimento de incredulidade tomou conta da parte vermelha da garotada. Me olhavam como quem procurando um alento, um consolo com o irmão mais velho. Será que dava pra vencer? Sei lá... o Inter já tinha enfrentado o time catalão algumas vezes na história, mas em épocas diferentes e sem essa rivalidade. Nada disso importaria no dia 17 de dezembro. Os registros são resetados nessas horas.

Era gol mesmo do Inter. O narrador queria dar metade da taça pro sujeito que passou uma bola medonha pro tal Adriano. Eu nem lembrava da existência desse Adriano. Depois que saquei que a torcida colorada tinha bronca com um tal de Gabiru. Eu não tinha. Para mim, ele era o cara que entrou no lugar do ídolo Fernandão e era, a partir de então, o melhor jogador do mundo.

Acho que dois dias antes, na mesma escola, rapazes do 3º ano fizeram um bolão. Um pila a aposta. Placares absurdos, como 5x0 para o adversário do Inter, foram comuns. Eu apostei no contrário:

1x0 pro Colorado. Pode anotar!

Risadas. Claro, né? O Inter estava sem seus principais jogadores, vendidos depois da campanha da Libertadores, e ia enfrentar o bicho-papão do futebol europeu.

Depois do gol, depois que a ficha caiu de verdade, saí correndo pela sala de casa, minha gata cruzou na minha frente com o pavor do barulho da mesa de centro (que recebera uma porrada minha, de faceirice), quase piso nela, tum, tum, tum, meus pés fizeram ruído pesado no chão, abri a porta da sacada, me empoleirei na grade e gritei, como se tentasse reativar o espírito de Colorados mortos:

Cadê o Ronaldinho? Cadê o Ronaldinho? HHAhAhaHA...

O resto todo mundo sabe: cobrança de falta dando cagaço na trave do Clemer, golpes de vista para tirar chutes grenás, defesas impossíveis, amarração, marcação, nó na garganta e o inferno. Ganhei R$ 6,75 do bolão, gastei em xis e refri pros meus amigos de aposta e entrei para minha própria história. Tudo teve um desfecho feliz naquela manhã quente de dezembro. Talvez tenha sido tudo por meu avô.

Talvez tenha sido algo premeditado mesmo, como disse Veríssimo. Aquele Inter e Flamengo, que eu escutei na rádio quando criança, tinha terminado num pachorrento 1x1.


publicado originalmente no Beco do Sapulha .

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O justiceiro

— É? E que tipo de música tu curte...?
— Ai... eu gosto de tudo. Eu sou bem eclética!


Começamos mal. “Eclética” para mim é a criatura que ouve qualquer bosta que lhe oferecem e acha que está no hype por isso. Não faz o mínimo discernimento entre Rock e sertanejo pelo fato de não ter nem uma rasa cultura para diferenciar néctar de ranho. Denise era assim. Pobre alma.

Mas era gostosa, e isso é muito importante. Era morena jambo, do tipo vileira bonita. A cara entregava a casta, por mais que alisasse o cabelo certamente outrora pixaim. As coxas grossíssimas eram uma atração à parte: de tão fortes, raspavam uma nas outras, deixando o caminhar de Denise particularmente jocoso. Mas, enfim...

Combinei com ela para buscá-la à noite, naquele frio do início de inverno. Liguei meu mini-aquecedor (“tudo na casa desse cara é mini...”, já diria meu amigo Rodrigo) e busquei a Dê. Estava muito bonita, embora a roupa me desse a entender que seria um trabalho medonho para revelar aquele corpão.

Pessoas pixains. Pessoas crespas... deusducéu, como enfrentei isso em minha puta vida. A cada conquista, depois de gastar litros de meu Latim de boteco, eu pensava: “Puta merda, mais um conjunto mortífero de pelos encravados, braços arrepiados e cheiros pesados...”. Depende muito do nível social onde o cidadão ataca. Ou não. Eu já saí com mulheres que dariam orgulho aos nazistas, tal o sangue ariano... e, no fim, crespas. Gente mal cuidada, saca? Tão certo quanto esquadrias de janelas de prédios públicos saírem tortas, certo como bombons envelhecerem rápido, tão certo quanto velas fazerem luz solar em filmes é o fato de que eu pareço um gênio pra essa mulherada, só por organizar minimamente meu palavreado. É cômico.

Pensando melhor, eu mereço, pois já fiquei com meninas insuportáveis que tinham o peito de, deitadas em minha cama, largar bobagens obtusas nos meus ouvidos:

— Sabe, no início eu não gostava de ti, mas agora...
— ... mas agora tu tá aqui pelada na minha frente, né?
— Ai, guri idiota...


Denise era mais na dela. Logo se encantou por um maldito livro que eu estava lendo e que falava sobre Simbolismo. Se encantou comigo, na real, porque pareci um gênio... cê sabe. Disso para rebocá-la pra casa foi um tapa.

O que me irritava de verdade na morena era seu péssimo gosto musical. Prefiro não citar tudo o que eu sabia que ela ouvia. Seria constrangedor. Por mais que fosse um amor de pessoa, simpática, doce e levemente safada, ela tinha que ser punida sumária e exemplarmente. Uma tunda de laço naquela bunda fofa não ia ajudar em nada, mas deveria ser delicioso. Lembrei de quando Joana veio, numa tarde, aos meus braços, fugida novamente de seu marido:

— Ui, que música estranha é essa...?
— Shhhh... é Donovan... fica fria e deita aqui de novo.


Era isso: a punição seria espinafrar boa música na cara da vileira. Imagino ela saindo só com trabalhadores-braçais oblíquos sem um posicionamento filosófico convincente:

— Que música tu quer ouvir, Denise, meu amor?
— Tem pagode?
— Tem, claro...
(entra no som do hino parobeense: “Deixa acontecê na-tu-ral-mente...”).

Falei em posicionamento filosófico? Bem, minha filosofia naquela noite foi anunciar que ela ouviria algo diferente. Fucei nos meus vinis e puxei o assustador “Cabeça dinossauro”, dos Titãs. A capa foi um impacto. Coloquei na vitrola e botei o volume alto o suficiente, direto na música título.

— E aí? Gostou? — perguntei sarcasticamente.
— É... diferente, né?
— Pode crer! Tá, vem logo pra cama...

Eu estava vingado: como uma torta de chantilly à la filme pastelão, joguei música boa nos cornos da mocinha. Vitória, rapaz! Você é mesmo um justiceiro do bom gosto. Hordas de cabeludos cabaços agradecem sua ousadia e entrega ao ideal roqueiro.

Ela se vingou também: sua roupa era realmente difícil de tirar e não saiu de seu corpo a noite toda.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ela voltou ao quarto

Ela se levantou da cama e puxou junto um pouco do lençol que me cobria. Não importava... o ambiente no meu quarto tava quente, mesmo com o ventilador de teto ligado no talo. O cheiro que circulava entre roupeiro, mesa, TV e cama decerto era bem diferente do aroma natural da casa. Um misto de suor, cama molhada, vagina, pênis, látex, bunda e cabeças. Devia de tá um horror, mas me acostumei.

Ela foi até o banheiro se lavar. Joana estava pingando de meu esforço, com marcas de mordidas, beijos violentos e dedos nervosos. Vestiu uma camisetona GG que eu tenho estrategicamente disposta para auxiliar meninas a circularem à vontade em minha residência. Ela estava desesperadoramente gostosa naquele fim de tarde. As pernas judiadas pelo namoro-casamento montado às pressas não se deixavam obliterar pelas poucas cavidades de celulite.

Era lindo de ver sua bunda enorme e firme escapando dos limites da bainha da camiseta, entrecortada pela calcinha brega (cheiro artificial de morango). Seus seios pequenos fincavam sofregamente a roupa, como quem querendo crescer para me agradar mais. Nem precisava, pois seus quadris eram de fazer eu cometer um crime para morar dentro daquelas carnes todas. Delícia.

Uma mulher completa, já, aos seus 17 para 18 anos. Precisava mesmo sair de casa, morar com algum gaudério xucro que lhe bancasse casa e comida. Seus pais deveriam sofrer o inferno com ela e sua irmã, já mãe. Meninas querendo pular a janela de casa para dar para algum pobre trabalhador-braçal que lhes agradem incomodam toda a vizinhança. E eis aqui ela, casadinha e se entregando para um cabeludo sujeira como eu.


E dava, meu Deus! Parecia gastar a vontade de meses. Todavia, não colaborava nem uma beirada para fazer com que eu entrasse em seu corpo branco. Deitada na cama toda errada, acusava notável inabilidade de fazer uma das coisas mais simples do mundo, totalmente submissa. Ao beijá-la enquanto a penetrava, dava pra sentir uma felicidade oblíqua, depois confessando que seu marido não fazia isso quando a tomava como mulher. Romantismo zero do cidadão... e ponto pra mim. Pelo que gemia, eu tava no caminho certo. Sublime.

Joana deixou a porta aberta. Eu podia ver sua movimentação calculada. Baixou a calcinha brega, sentou com jeitinho e ouvi o barulho de líquido descendo... pensei nos meus amigos pirando num negócio desses; na certa, sugeririam brincar de chuva dourada; um asco! Pegou bastante papel para se limpar, imaginando que eu continuaria no saboroso oral feito com vontade nela. Era cheirosa. Não, ela tinha um cheiro neutro, de corpo, não daquelas mulheres de pele grossa, com foliculite e cheirando a bunda o tempo todo.

Foi à pia, abriu o armarinho, pegou uma escova de dentes (a minha, sem problemas), encheu de pasta barata e começou um balé com os braços. Pude ver de longe os delicados movimentos que seus braços servis descreviam no ar, guiando minha escova em sua boca. Pelo canto, a espuma escorria e caia na porcelana. Logo pensei besteiras, que certamente colocaria em prática tão logo pudesse. Doce. Demorou naquilo. Cuspiu algumas vezes e, finalmente, se lavou, limpou todo o rosto, buscou um pente e alisou seus cabelos castanhos ondulados. Ela olhava em direção à minha porta, mas não me via por conta da escuridão. No rosto, uma expressão quase burocrática, de quem já fizera tantas vezes os mesmos roteiros. Secou seu rosto e voltou para meus aposentos. Linda.

No quarto, me perguntou o que eu estava olhando. Bem, não é todo dia que uma mulher corpuda daquelas entra tão desavisadamente no meu ninho. Eu tinha o direito de curtir minha conquista e dar risadas de meus tempos de outrora. Lembro bem da vez em que peguei uma caipira com pele italianada e fui adentrar a pequena em seu quarto, na casa de seus tios, que a criavam. Sob a tutela deles, a menina (homônima à cidadã que estava de pés descalços agora em meu antro) não poderia “ficar trancada no quarto”. Um dia chaveou a porta e foi advertida com grossura. Pais ou tios não querem que façam com suas filhas e sobrinhas o que eles mesmos fizeram com as filhas e sobrinhas dos outros. Situação embaraçosa. Pois agora havia uma mulher decidida e com poucas amarras (hoje, casório é amarrinha mixuruca), que por mais que fosse medida em seus modos, tentando, sei lá, não parecer tão atirada, podia se trancar comigo sem receios.

Que tarde aquela! Seus cabelos ainda continham nós por conta de minhas mãos domadoras de sem-vergonhas. Ela já estava arrumando os tênis para vestir. Desvirou as meias rosas, desvirou uma perna de sua maldita calça saruel, ajeitou a calcinha, juntou o sutiã e se jogou de volta na cama, num ímpeto de fofura. Por que será que eu achava coisas tão banais, feitas por uma mulher razoavelmente banal, tão interessantes? Ela fuça em sua bolsa, revira carteira, pega o celular, olha a hora e comete um crime...


Eram fotos do afilhado ou de alguma criança nojenta qualquer.


Fotinho de afilhado no celular, NÃO!


Dei dois reais para o ônibus e mandei-a embora na hora.