Mostrando postagens com marcador rock. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador rock. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Funk, Do it Yourself & o punk da Favela

A seguir, um texto (publicado originalmente no Facebook, lúcido, direto, quase cabeça, enorme e arrasador de velhos alicerces escrito por meu amigo Rômulo Carniel (frise-se: umas das top 3 mentes mais inspiradoras com a qual tive oportunidade de conviver na minha pós-adolescência). Antes que pareça apenas rasgação de seda, digo que o texto botou até eu, notório cabeça dura reaça, pra pensar.

"Mas vou dizer que eu nutro simpatias pelos manos da perifa. Não pertenço àquele universo, não me vejo representado nas letras (tá, no ostentação rola uma identificação de cantinho: quem não quer contar plaquê de 100 dentro de um Citröen?), muito menos compro os cds ou baixo as músicas. Porém, todavia, no entanto, a sacanagem intrínseca e espontânea da parada me desperta bem mais o interesse e a simpatia do que, por exemplo, a posturinha forçada do bom-mocismo temperado com pitadas bem dosadas de "sensualidade latina"do sertanejo universi(o)tário. A canastrice do Funk me soa mais genuína e verdadeira.

Sem falar que todo roqueiro de mente aberta que se preze, aquele que cultiva o senso crítico, que ainda não perdeu o senso de humor e que tenta manter vivas as virtudes cristãs (ou anti, vai saber...) da irreverência e da iconoclastia - que mais de uma vez na história recente foram a reserva de forças que salvaram o Rock'n'Roll de morrer afogado em seu próprio marasmo auto-replicante - procura se manter à distância máxima dessa retórica bundona de "superioridade intelectual", "bom gosto", "habilidade musical", "letras cabeça", e blá blá blá de "poesia" e “lirismo”. Não que habilidade, boas letras e bom gosto não sejam legais, essenciais até. Ok, mas além de conceitos pra lá de subjetivos e arbitrários, sozinhos são só encheção de saco e de linguiça, não enchem barriga de ninguém que tenha cérebro e tripas saudáveis, se me entendem. E não foi apenas disso que o Rock - e toda a música Pop, na real - sobreviveu, mas sim da energia e da atitude para chutar a porta da frente toda vez que foi preciso.

A verdade é que boa parte do Rock Nacional vive de passado. Não apresenta nada de novo - salvo honrosas exceções que não tocam em muitas FMs. Não apresenta perspectivas de futuro além de se tornar outro fóssil cultural, venerável, porém estanque, aos moldes do Jazz e da velha MPB. Ainda assim, quer ter a empáfia de criticar toda a manifestação cultural que não se guia por seus parâmetros roqueiros de qualidade. Puro mimimi de quem engessou a própria criatividade e está satisfeito com isso. Ao invés de assumir velhas posturas que antes apenas a intelectualidade bundona da velha MPB adotava, os "roqueirões"de hoje deviam era colocar os miolos - e se possível as vísceras - pra funcionar e tentar canalizar a força bruta do funk carioca para algo que realmente sacuda as estruturas, que dê uma renovada no cenário. Tipo o Edu K fez há quase 20 anos atrás. Ou a Comunidade Ninjitsu, injustamente deplorada pelo adolescente careta que fui. Ironicamente, precisei conhecer, já na idade adulta as bandas dos anos 80, 70 e 60 que eles sampleavam para depois sacar o quão interessante foi a proposta de perverter aqueles hits com refrões irrevrentes de funk carioca.

Não se trata de negar o passado. O que foi bom sempre vai ser. Clássicos são clássicos, mas eles devem ter outra função que não apenas inspirar veneração e cópia. Temos que ter a coragem e o peito de desconstruir os clássicos, de pegar nossas velhas Rolling Stones e picotá-las para fazer uma nova colagem, se possível com retalhos de outras revistas e livros diferentes, se é que a metáfora se encaixa. Afinal, não foi de mistureba de estilos, bebendo direto nas fontes dos guetos e das ruas, simplificando e adaptando, que o Rock surgiu e se popularizou? Não foi saindo para a rua e sacando o que estava acontecendo ao redor que o Rock se renovou tantas vezes e sobreviveu a todas as armadilhas da indústria cultural, muitas criadas por ele mesmo?

Até quando o Roqueiro brasileiro vai encarar a música como se fosse uma religião imutável e tudo o que for diferente - e mais popular - como uma heresia execrável? É só música, pô! E pop, ainda por cima! Não é música erudita, cheia de regrinhas matemáticas e discussões técnicas. Esta tem seu lugar garantido na história, está lá para os estudiosos e ainda viva nas salas e teatros. Na música popular (sim, o Rock é música popular) a técnica, a forma e o estilo podem até ser importantes, mas servem a outros objetivos, talvez não tão nobres, porém maiores e vitais: à celebração, à diversão, ao ritual de acasalamento em volta da fogueira, o chacoalhar de esqueleto dos nossos antepassados pra espantar o frio, a fome, o medo e o tédio. É pura carne, não nos esqueçamos! E o Funk Brasileiro, abstraindo os investimentos maciços de grana que a indústria cultural vem fazendo a cada ano no cenário, ainda cumpre bastante bem esse papel primitivo, que no passado o Rock cumpriu tão bem e ainda pode cumprir: dar vazão aos instintos básicos, que sem isso enlouquecemos ou nos tornamos cascas vazias.

Será que as letras do Rock são tão superiores ao Funk assim? Os punkzões intelectuais de plantão pararam para ouvir as letras dos Dead Boys, os “Sex Pistols de NY”? Só pra avisar: são de uma bagaceirice de fazer sorrir o MC Catra no inferno. E os Fãs do bom e velho Hardão, pararam pra pensar no quão superficial são algumas letras do Kiss, por exemplo? E o Guns`n`roses, com seus clipes apoteóticos, com direito a casamentos faraônicos, destruição de carrões em penhascos e muito veludo e cetim rasgado, são menos ostentatórios do que o MC Guimê e sua coleção de motos e cachorras? Só os MCs são ridículos por usar correntão de ouro? O Funk faz apologia à violência e às drogas? E Oo Rock é santinho então, não cultua bad boys transgressores, seus anti-heróis não se drogam nem agridem ninguém? Falar do Funk então porquê? Por causa da primariedade precária das músicas? Mas os  Ramones e os Sex Pistols? Não eram toscos pra caralho quando surgiram? Falar da batida eletrônica repetitiva? Mas e as bandas do sinth pop e do eletro oitentista, que começaram a usar mais instrumentos eletrônicos? O Bauhaus é Cult entre o pessoal “cabeça” que curte New Wave e Pós Punk, e tem alguns sons que são puro ruído de sintetizadores se repetindo ad infinitum. E os Beastie Boys, que misturaram o Punk com o Hip Hop, abusando de samplers e batidas eletrônicas? O Funk Carioca é imoral e só fala de sexo? Mas do que falam mesmo muitas das letras do Rock, de todos os estilos? O Chuck Berry, o Little Richards e o Jerry Lee tavam falando de quê quando chamavam as adolescentes para chacoalhar até virarem grandes bolas de fogo? E o Elvis rebolando pra caralho? Gente, o John Lennon (pra alguns o verdadeiro santinho doce e intelectual do flower power, pois sim...) deu a morta faz tempo: tudo acaba em sacanagem e rala coxa. Não ouviu quem não quis, ou tava chapado demais em sua própria ingenuidade embalada a LSD. Roqueiro adora apontar o moralismo dos outros, mas quando dá pra ser moralista...

Os MCs do Funk brasileiro e seu público cativo certamente estão alheios a esta discussão, como certamente o Bill Halley e seus cometas, o Buddy Holly e o Gene Vincent também estavam lá em 1950 e poucos, quando começaram a simplificar o rhythm and blues e outros ritmos da música negra americana para consumo televisivo de um público branco, nascido no pós guerra e que estava entediado, louco por mudanças e um pouco de diversão. Como eles, talvez muitos funkeiros não tenham consciência de que estão refletindo as mudanças profundas de sua sociedade, num momento de inflexão da história. Muito menos alimentam pretensões revolucionárias e contestatórias, como querem alguns. Porém, apesar de abraçar, desejar e aceitar o status quo da sociedade e da economia em que vivem, involuntariamente a modificam profunda e irreversivelmente. A história se repete e até os resmungos incompreensão e de crítica moralista são similares.

O Rock dos anos 50 era inconsequente e até alienado, mas era cheio de vida e energia. Muitos roqueiros de carteirinha hoje se surpreendem ao serem defrontados com a crua realidade de que o Rock surgiu, sim, como uma modismo quase passageiro entre os anos de 1955 e 1959 , fomentado pela mídia e movido a grandes somas de dinheiro. Exatamente como outros modismos por eles criticados nas décadas seguintes, como a disco music nos 70`s, o Sinth Pop e o New Romantic nos 80’s, as Boy Bands dos anos 90 e início dos 2000 e agora, especificamente no cenário brasileiro da segunda década do século XXI, o Funk – que não é mais só carioca.

Talvez por isso muitos tendem se enganar, achando que o Rock só começou mesmo pra valer com os Beatles desembarcando nos EUA em 64 e os Stones em 65. Engano de vocês, crianças. Começou antes mesmo das reboladas do Elvis na TV em 55. Começou nos botecos de beira de estrada no interior rural dos EUA (Para quem quiser ver um retrato interessante dessa era, indico o filme The Honeydripper), depois nos becos das grandes cidades, com gente semi-analfabeta tocando do jeito que dava, com o pouco que sabiam de teoria musical e com os instrumentos que tinham à mão, tocando Blues, Rhythm and blues e o Ragtime que aprendiam com seus tios, primos e amigos na esquinas e nos pátios das casas. Do mesmo jeito que os manos do funk. Só depois é que foram parar nas gravadoras. E as festas eram que nem os bailes funks de hoje: cheio de gente preta e pobre, botando pra quebrar, dançando até o chão se esfregando pelos cantos e esticando a noitada em algum quarto escuro. Há farta documentação fotográfica desses antros – e é um material que vale muito a pena de ser conferido. Pura diversão, sem neuras, sem as implicações políticas que a malandragem da esquerda sempre quer ver e sem os tabus morais que a direita careta sempre enxerga. Simples assim, como uma letra de funk. O bom e velho instinto de sobrevivência dizendo que, para viver mais uma semana sem enlouquecer nos campos e nas fábricas, é bom soltar um pouco as rédeas e enlouquecer por uma ou duas noites.

Isso é Rock’n’nroll. E isso é o Funk no Brasil hoje. E isso é um sopro de ar fresco na cultura Pop. Se vai ter gente esperta sabendo para onde apontar as velas do seu barco nessa brisa, daí é outra história. Sou cético, mas o primeiro passo é remover a venda do preconceito – Como fez Caetano nos anos 60 ao introduzir a Guitarra elétrica na MPB; ou o Jorge Ben, ao misturar o Samba com o Rock; Ou como o Marcelo D2, misturando Samba e HipHop; Ou como o Tim Maia ao cantar soul music em português; Ou, finalmente, como Bob Dylan obrigou a fazer o cenário do Folk americano e britânico ao colocar no palco com ele uma banda eletrificada de Rock na metade dos anos 60. Sim, o Rock`n`roll era considerado música intelectualmente inferior, minha gente, coisa de adolescente alienado. Até 1965, lá fora, o Folk é que era descolado, coisa de gente maneira, cool e de bom gosto. Primeiro, o folk foi coisa de intelectual de esquerda. Depois da rapaziada descolada, o pessoal Cult que lia os Beats, vejam a ironia, logo os Beats que ouviram Jazz quando o jazz ainda não era careta... E o Rock, bem... O Rock era o Funk do iníco dos anos 60: fazia muito barulho mas não era levado nem um pouco a sério. Precisou o Dylan, com toda a sua aura de “voz de uma geração”, construída com muita canção folk de protesto e visual caipira/descolado/politizado nos anos anteriores a 65 pra chamar a atenção da inteligetzia musical para o potencial explosivo dessa coisa chamada Rock’n’roll. E precisou os Beatles elogiarem publicamente o Dylan para as adolescentes dos dois lados dos oceanos darem um tempo entre um gritinho histérico e outro e prestarem atenção em outros estilos, pegarem uns livrinhos para ler, etc e tal.

Daí pra frente aconteceu o que todos já sabem – e o que todo roqueiro metido a intelectual refinado tenta se convencer de que foi o começo bíblico dos tempos: a psicodelia (que já vinha se desenhando na California, com reflexos em Londres e Nova York, independentemente do que Dylan ou Lennon diziam sob os holofotes) ganhou o mundo e mudou a estética, o movimento hippie (que também já existia desde o final dos anos 50, só ganhou os noticiários em 67 e só chegou no Brasil depois de 69) se popularizou, o sexo deixou de ser tabu, Maconha, LSD, Discussões intelectuais em mesa de Bar, sofisticação das bandas em ritmo exponencial, altas somas de grana na indústria musical, mega festivais, mega shows, saco cheio e desilusão no início dos 70, exageros e paródias na metade da década, revolta, niilismo, punk e skinhead no final daquela década, overdoses de heroína, os iuppies e o pós punk, nos anos 80, o restinho da new wave, o hard farofa, o grunge e o brit pop nos 90, o Indie e o eletro nos 2000, etc etc etc...

O Rock se sofisticou e se diversificou. Mas uma coisa é certa: toda vez que ameaçou paralisar e estagnar, alguém chutou a porta e movimentou as coisas. E isso porque a inquietude, a iconoclastia e a flexibilidade de adaptação estão no DNA do estilo, herdado lá dos botecos e inferninhos dos anos 1940, das favelas urbanas e rurais dos EUA, tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas com muitas aqui do Brasil e do mundo. E aqui ainda temos algo que os “modernos”de 1922 chamaram de “antropofagia”, que nos permite fagocitar tudo que nos interesse. O que não mata engorda, diz o ditado pop. Então porquê temer e torcer o nariz para o Funk? Só porque alguns deles talvez não saibam quem foi James Brown e o que significa groove ou soul? E daí que alguns desses caras não saibam tocar um instrumento ou não tenham noção de tom e tempo? Só o John Lydon podia desafinar? E toda a energia transbordante, todo o Do It Yourself quase punk que essa galera tem, essa vontade de botar o baile pra ferver, colocar a casa a baixo? Não tem valor nenhum? Não gosta das letras, amigo? Pensa numa melhor, faça a sua versão, sabidão! Pegue a proposta sonora e a transforme em outra coisa. As possibilidades estão em aberto.

Quando Dylan plugou sua guitarra, em 1965, os roqueiros olharam desconfiados, mas acabaram aceitando aquela nova forma de fazer som, aquela maneira diferente, mais cabeça de dizer as coisas que estavam sentindo, usando a linguagem que conheciam, a da guitarra elétrica. O pessoal do Folk foi quem torceu mais o nariz, boicotaram shows, vaiaram, crucificaram o Dylam e o chamaram de “traidor do movimento”. Mas no final daquela década, caras como Willie Nelson e Pete Seeger, ao verem sua própria base de fãs crescer, com jovens que, talvez, se não tivesse ouvido o Dylan “plugado”primeiro nunca tivessem chegado ao Folk, deram o braço a torcer. Perceberam a força que aquelas músicas concebidas para serem tocadas ao violão adquiriam com o peso de uma banda de Rock e muitos adotaram formações roqueiras em suas próprias bandas. O Folk sobreviveu e está integrado na cultura Pop até hoje. Tudo porque se obrigou a deixar o preconceito de lado e aceitar o parentesco com o Rock, que era considerado superficial e tosco, o primo pobre da música popular. O Rock, por sua vez, se beneficiou amadurecendo e deixando de ser bobinho, ganhou respeito.

Muitos estão pensando: “esse cara está propondo que o Rock se agarre ao funk para se salvar?” E já vejo pedras sendo juntadas do chão para serem atiradas. Calma. Não sou tão crédulo. Duvido que surja um Dylan no Rock Brasileiro que traga o Funk para o respeito dos intelectuais e o Rock para desfrute da favela. Não existem messias no mundo real e Dylan não foi um, por mais que tentassem fazer crer. Além disso, um messias intelectualizado aqui não caberia no contexto de um baile funk. Prefiro o Edu K cantando “vai popozuda”com uma chupeta de plástico na boca. E acho que faria muito bem para arejar certas cabeças reconhecer que o Funk é, sim, o primo pobre do velho Rock`n`roll no Brasil. E admitir que as festinhas no barraco desse primo andam bem mais divertidas e movimentadas do que a junção de velhos ranzinzas lá em casa."

(CARNIEL, Rômulo, 14 de Febreiro de 2014)


domingo, 11 de setembro de 2011

Tudo errado

Há tempos. Pensemos em termos de reuniões sociais, como no caso de uma igreja comum. A católica, talvez, para se aproximar mais de minha criação.


Em princípio, uma igreja simpática e bucólica de interior é uma reprodução material de toda a vontade divina na Terra, correto? E, pelo mesmo princípio básico, a ordem religiosa que ergueu o templo tem sua fé alicerçada no 'livro mais vendido no mundo', é isso? Tá, beleza... só que minha noção de australopitécus não entende uns troço.


Tipo, o cara lê o livro, se diverte com as histórias do Velho Testamento, torce pelo Golias e chega ao Novo Testamento. Ali, há a história incompleta de um cidadão que é descrito como um semi-deus, a exemplo de Ulisses. É um livro, tudo bem. Mas o cenário das pregações espirituais que aparecem nos contos em nada se parece com uma capela! Não parece lógico que as igrejas baseadas na existência de Jesus fossem, então, um terreno meio desértico (reproduzindo o relevo na Judeia), com um laguinho e barcos (imitando o trabalho dos apóstolos) e umas ovelhas. Ali é que deveriam rolar as missas, sem todo essa pompa com ouro e imagens fakes, tampouco com o silêncio que se exige dentro dum lugar desses.


Acontece um erro de avaliação com o tal de Rock:


- E essa roupinha aí de almirante, Marat?

- Que que tem ela? É tenente-comandante, porra... achou tri?

- Nada a ver, meu! Tu te acha tri roqueiro...

- É, isso lá é.

- ... mas Rock não é imagem! É atitude, cara!


Ah, é? Nem na propaganda do Nescau, que traz pro vagabundo uma tal de 'energia e atitude', rola Rock de verdade. A gurizada que vê na capa dos discos dos Ramones aquele bando de secos enfiados em jeans apertadissississímos, e usa calça larguissississíma, certamente não deixou o cabelo crescer para ficar parecido com a mãe. É porque precisamos de ídolos de comportamento e cultura, mais do que um ídolo precisa das pessoas (Dylan, Bob).


Só que assim como aconteceu com a igreja, distorceram tudo as paradas do Rock. Por mais que o estilo seja o mais propício a juntar tudo que é estilo de ideia, influência e referência, ele não é uma maldita forma de salvar a porcaria do mundo! Quando ouço AC/DC, não penso em virar vegan nem em respeitar mulheres: eu fico é com vontade de tocar terror ao redor.


Estão vendo o estilo musical como sendo uma cartilha cor-de-rosa com diretrizes de bom mocismo pequeno-burguês, respeito aos direitos humanos e animais e convite à meditação. Ah, porra! Cor-de-rosa é como fica a cabeça do meu pau mole... e é a cor do meu celular comprado na Internet, ahhaha!


A tríade 'sexo, drogas e Rock n' Roll' já era. Cortaram o sexo, pois parece feio o cara comer alguém e achar isso afudê; as drogas já foram tiradas pela propaganda do mó evento de música no Brasil (trocaram, adivinhem, pelo verbete 'atitude'...); e o resto você sabe: não se ouve nas rádios faz horas.


Sinceramente, concluir um assunto desses tomaria muita energia de mim e tô com fome. Vou meter um churrasco, encher a pança de cerveja e tentar angariar um rabo-de-saia pra mim, ouvindo Zeppelin nas alturas.

domingo, 27 de junho de 2010

Butiás de bolso

- Oi, Marat, que bom que tu veio mesmo!
- Claro, Marília! Eu combinei contigo... isso para mim é uma convocação!
- Hahaha, bobo... tudo bem?
- Tudo! Cê tá linda, hein?
- Que isso... tu que é um fofo. Tu é bem diferente dos outros caras que me convidam pra sair.
- Ah, obrigado... assim eu vou ficar me achando mais do que já me acho.
- Sério... tu me trata que nem gente. Tipo, eu não sou essas patricinhas, tu viu onde eu moro...
- Olha, Mari, as patricinhas levam vantagem, geralmente, por 'n' fatores. E a questão é, sim, o fator dinheiro e status. Por isso que as meninas mais pobres começam a vida madura mais cedo...
- Como?
- Explico: se um cara chegar em ti, tu sendo de menos posses, e tu cortar o cidadão, ele poderá te chinelear às ganhas, lembrando indelicadamente onde tu mora e coisas assim. E vai te mandar à merda, deixando caminho livre pra outro. O processo vai continuar até tu começar a se sentir definitivamente queimada no meio masculino. Por isso, gurias como tu sacam que devem se entregar mais facilmente aos caras, justamente para manter a tranquilidade e não ser achincalhada de graça.
- É, é bem assim!
- Já as patriçoilas têm crédito. Um cara chega numa delas e certamente vai ouvir aqueles esparros típicos de gurias mimadas. Mas como ela tem grana e status, o cara vai insistir. Assim, a guria vai poder enrolar o máximo, sem que ela ouça barbaridades. Afinal, quem ousaria xingar uma menina que todos querem? Nisso, elas acabam descobrindo seu corpo muito mais tarde.
- Hahah... pior: esses guris são muito trouxas. Ficam se atirando em cima dessas gurias cheias de frescuras, hahaha...
- É, eu sei como é. Bem, mocinha, e para essa noite? Sugiro uns lugares legais, como o Divina Comédia, em Porto: lá tem umas bandas e tal e um som agradavelmente pop, mas com informação. Ambiente todo anos 40 e tal...
- Hummm...
- Tem aqui pela região o Pop Cult, em Noia, onde rola só bandas com som próprio e o lugar é mais lado B e tal. Tem o velho Tio Remi, em Igrejinha, onde eu já toquei umas 200 vezes e é sempre uma opção afudê e com bandas de Rock muito interessantes.
- Ai, tá... mas por que a gente não vai lá no Star? Dizem que hoje vai tá muito fera!
- Star? Aquele onde rola só bailão?
- Ééé! Vamos! Vai ser tri...
.
Depois dessa, até achei que 3 pila pro táxi de volta saiu caro demais.

domingo, 22 de novembro de 2009

Já que é Rock...

Ainda dentro do espectro da impactante opinião anterior (que certamente abalará as estruturas das variáveis que sustentam as ligações atômicas universais): já repararam na quantidade de 'gente feia' que nosso estilo preferido abarca?
.
Se levarmos em conta que cada um tem no seu íntimo um ideal de rosto e corpo perfeito, não chega a ser algo tão ilógico ou preconceituoso a ser pensado. É uma realidade.
.
Não precisamos ser gênios para sacar isso. E sacar o porquê de ser assim: o Rock é um estilo que criou essa fantasia da iconoclastia, do 'nem tô aí', de ir contra o estabilishment... fatalmente contra os padrões do mesmo. E se os padrões se referem à estética de mulheres esguias e vaidosas, por que não ir pelo caminho contrário? Claro, é do Rock!
.
Como, no entanto, mesmo que a 'gente feia' tenha encontrado nos braços do estilo um abrigo quentinho e fofo, as pessoas em geral ainda têm discernimento. Não adianta somente o camisetão GG com a carona do Cobain estampada. Tem que ter um cabelo vermelo purpúreo cortado em casa, a tatuagem, o All Star roxo cobrindo as grossíssimas canelas e acessórios infantis espalhados pelo corpitcho.
.
O facto de ter uma tropa de cabeludos desgrenhados que topam essas encrencas faz aumentar o plantel roqueiro. Talvez seja uma coisa cultural, de moda e essas coisas conversáveis enquanto tomamos aquele vinho barato francês, o Perrgolá. O suíngue das músicas dançantes de bares e casas caras chama a atenção da mulherada gata. Geralmente (e sublinhe bem esse advérbio) a beleza é própria das castas altas da sociedade. Sabe como é: pai bonito e rico quer mulher bonita, aumentando as chances de ter uma prole plasticamente aceita.
.
Aos pobres, restam os ritmos populares e o Rock. Ele, guerreiro, highlander, imponente, diz a todo o povo: "vem, que o papai te acolhe no colo!". Ali, nos fronts da escola de Ozzy, estão enfileirados, feios, bonitos, inteligentes, marginais, magros, gordos, negros, ruivos, amarelos, caucasianos, limpos, imundos, caretas, cabações e viciados. Quando não há uma tribo do hype na qual se encaixar, escolha a opção 2.
.
O Rock.
.
Solos: besteiras que me ocorreram enquanto eu escutava vinis em versões nacionais dos Bee Gees...
  • Que fim levou o tal GAS Sound, aquele concurso da Guaraná Antarctica na RedeTV?
  • Que fim levaram as bandas que 'brilharam' nos concursos de verão da Karaoukê e da Cult Music?
  • Que fim levaram os festivais todos do Vale do Sinos e Paranhana?
  • Que fim levaram as gráficas que faziam flyers, cartazes legais e faixas para divulgação de rua?
  • E por último: que maldito fim levou a banda Grand Prix, do Rio de Janeiro, que tocava um som próximo ao Oasis (fase 96), e que eu havia descoberto à época do Rock Way of Life, em 2004?

É Rock ou não é?

Reativando a pocilga. É isso mesmo! É como diriam aqueles malditos anúncios de queima de estoque ou reinauguração de lojinha de fundo de quintal: "Você pediu... a gente voltou!".

Já se passaram quase três anos desde a última postagem no antigo Rock Way. A noção do que é Rock também passou. Desde 2007, quando excursionei pelo lado B dos anos 60, conversei com muita gente de banda, produtores, ouvintes e pessoal que nunca sacou porra nenhuma. Sem perguntar nada, fui re-pescando o espírito roqueiro que restou e como ele estava sendo filtrado pela nova geração.

Acredito que depois de tantas cervejas tomadas, muitos Torpedos (bebida barata de Taquara), horas de violão em escadas úmidas, psicotrópicos diversos, bandas terríveis, bandas ótimas, gente desligada, gente vencida... tudo isso depois, acabei por definir arbitrária e barbaramente um resumo do que se considera, hoje, uma atitude roqueira e o que se considerava em priscas eras.


E tudo se resume no cardápio que tem disponível no Bardomorro, em Sapiranga-RS. Os belezas montaram um portifólio de fotos e ilustrações das bebidas e boias em geral oferecidas pelo transgressor estabelecimento. A coisa mais marcante que vi ali foi a ilustração dos salgadinhos industrializados. Em vez de um pacotão de Milhopã (que seria um negócio afudê também), surge uma crássica Kombi furgão da Elma Chips!

Será essa a Kombi símbolo do Rock?

Ou poderia ser essa?

Claro que lá no cardápio vem o preço (R$ 2,50). Tomado pela Polar, agradeci ao Cabelo, dono do bolicho, por ter tido a visão de reativar um ícone de uma geração. Enquanto me derramava em rasgações de seda típicas de frequentadores do AA, um cidadão ao meu lado, representante característico do roqueiro comum, chamou minha atenção:

- Isso aí? Roqueiro? Ah, para, meu... tri era o outro cardápio dos lôco...

- Opa! É? Mas o que poderia ser mais Rocker que isso, bicho?

- Cara... essa Kombi não tem nada de Rock! Que que tem a ver? Saca aqui o antigo...

E me aparece um cartazinho com um desenho da uma Volkswagen anos 60, modelo hippie. E aí travou-se longa discussão sobre a validade dos discursos e tal...

O fato é que podemos ir de um ponto a outro dentro da mesma ideia de ser ou não Rock. Uma Kombi anos 60, daquelas que permitem mil e uma pinturas psicodélicas, certamente se trata de uma referência visual certeira... mas clássica e óbvia demais. Já uma furgoneta da Elma Chips reativa uma lembrança divertida nossa (só não a do roqueirão que discutiu comigo). Quem raios nunca quis invadir aquela Kombi amarela que carregava os Fandangos, Stiksies, Cheetos e Zambitos dos nossos sonhos? Imagina morar dentro de um furgão desses e encher a pança de Baconzitos até a mãe do cara ficar louca?

Salgadinho, por si só, não é um ícone roqueiro. Mas a transgressão de um valor já sedimentado (nesse caso, a perpetuação da VW hippie) é, sim, uma atitude própria dos velhos tempos.

Basicamente, 'ser Rock' fica reservado à quebra de padrões ou à iconoclastia. Batalhar em cima dos mesmos sempre é bom e identifica de longe facilmente um torcedor dos Beatles, mas deve haver o espaço para rir das próprias definições. É como usar uma camiseta do Abba em uma festa Punk.

Foge de minha acanhada compreensão que os cabeludos vão querer ver sempre os mesmos sinais, mesmas caras e falar sobre as mesmíssimas coisas. Escapar disso e ter autoridade de brincar com os alicerces da estética e filosofia que circunda o estilo de Chuck Berry parece no mínimo salutar para que as limitações não estrangulem o que vem por aí ainda.

Agradecimentos à turma que pedia a volta do RWOL. Eu fui resistente desde janeiro de 2007. Nesse meio tempo, gastei umas horas com faculdade e com mulheres... mais com a primeira, infelizmente. Isso, definitivamente, NÃO é Rock.

Licks: coisas que lembrei há pouco, mas que deu preguiça de fazer texto só pra isso.

  • Muitos shows bons num raio de 100km da minha casa. Só impressiona a falta miserável de divulgação.
  • As bandas pequenas que fiquem espertas: para gravar um bom disco, existe a Lei Rouanet.
  • Mais vale uma música boa ou uma muvuca na Web?
  • Esqueçam os bares consagradamente grandinhos. Noite cara, long necks superfaturadas e ambiente que há horas são bem pesados. E não aceitam Banricompras. Sim, eu sou um bagaceiro chinelão.