quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Vai ser gauche na vida...

Foi Drummond que escreveu a frase do título, né? Chato pra caralho!

Pois nasci em Porto Alegre, tchê! Fui criado no complexo de bairros populares (gurizada de classe média baixa, média e alta; eu era/sou da casta média) Rubem Berta, limite com Alvorada. Até os 7 anos vivi no Leopoldina, e depois até os 14 no sub-bairro à frente, o Santa Fé. Se esse distrito gigante se separasse, dava uma cidade razoavelmente populosa e pobre.

Separatismo que está ligado ao DNA do gaúcho. Diferentes razões nos levaram a tentar uma separação do resto do Brasil. Impostos nos tempos do Império, interesses de estanceiros maçons que tinham terra no Uruguai, num tempo em que Rio Grande do Sul e o país vizinho eram quase a mesma bosta, diferenças culturais, bairrismo, preconceito e nariz empinado.

A publicidade se vale bastante do gauchismo. Fôlderes e campanhas na TV e na Internet enaltecem o orgulho pelas coxilhas e pelo meu pampa, pelos costumes/cultura e pelo sotaque adotado abaixo do Mampituba. E vendem bastante fingindo que são mais sulistas do que sua razão social pode sugerir.

É um terreno quase sagrado. É, na real: experimenta dar uma de fiasquento e falar mal do RS num Acampamento Farroupilha! Tu vira carne de churrasco.

O Gaúcho é um sujeito que se veste de uruguaio e francês, fala Português (mas que nem argentino), toma bebida italiana e vai a festas alemãs. Isso tudo num momento só. Com tanta mistura, parece limitado que usemos como música tradicional esse som de CTGs, que é um estilo que já sobrevive por si só, sem necessariamente fazer apologia a tradições. Nenhuma das músicas é cantadas em Espanhol, todas sem referências açorianas ou charruas ou colocadas de maneira tímida como china virgem. Frescura minha, eu sei.

É que essa alma castelhana é algo implantado pela Literatura. O gaúcho clássico deve a guaiaca a Simões de Lopes Neto, criador do eterno Blau Nunes, personagem que absorveu TODOS os valores atribuídos ao guasca médio. A folia projetada em volta de peões mestiços é grande demais. Passou dos limites do lógico. Mesmo sendo uma nação criada por índios desgarrados, negros, castelhanos perdidos, paulistas, italianos e alemães, com ou sem as virtudes propagadas pelas planícies do Sul, achamos ainda que somos só uruguaios. Isso mostra o quanto nosso orgulho é vazio na essência, apesar de ser divertido o facto de vermos a América de cabeça pra baixo.

Infelizmente, meu estado não está entre os mais desenvolvidos economicamente. Somos dependentes da força motriz do centro do país. E é por isso que se engana feio quem acha que sobreviveríamos autossuficientes numa utópica República do Pampa. O que julgamos roupa típica (a pilcha, composta por botas, bombacha, camisa, poncho no inverno, lenço e chapéu), é fantasia. Pro camponês uruguaio, é roupa de trabalho.

Dizem que o RS é o estado que mais lê. Olha, sou professor no interior e posso dizer que se essa estatística tem fundamento, temo pela quantidade de iletrados em outros estados. Cantamos em altos brados um hino que fala de uma luta de burgueses vs. Império e que acabou em empate: ninguém venceu, ninguém perdeu; a Revolução Farroupilha parou depois de um acordo.

Então, quando eu lembro do subúrbio da capital, que carrega um sotaque intermediário entre o interiorano e o bonfinesco, saco que cantamos de um jeito e nos imitamos de outro. Falamos tchê e bah!, mas as nuances de vocabulário e entonação nos diferenciam entre nós mesmos, por mais que o estereótipo tente uniformizar.

Se eu gosto do Rio Grande do Sul? Sim, sim, mas hoje mais pelo fato de lembrar seus irmãos culturais, o Uruguai e a Argentina. Como se fôssemos um pedacinho platino em pleno ziriguidum olelê tupiniquim.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Livre

Os avisos de "prejudicial à saúde" em bebidas e cigarros é o expoente máximo do que consideramos o livre arbítrio.

"A parada é ruim e faz mal... não estamos obrigando a usar. Tu quer? Bom... avisamos, hein?" E o cidadão vai lá e se afunda nas porcarias. Que estão ali, né? Compra se tu quer.

Por mais que o politicamente correto (já poderíamos escrever isso com letras maiúsculas, visto que é uma instituição) tente argumentar que o ser humano é um bom selvagem corrompido pelo Sistema, o cara ainda tem a chance de dizer 'não' pra alguma coisa.


Escrito sob efeito de uma Estrella Galicia geladíssima.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Definitivamente talvez

Primeira resenha sobre o Oasis (disco de lançamento), na Bizz de dezembro de 94.

Não precisa me agradecer.

"Você ainda acredita que uma banda que vem de Manchester (terra dos maiores pentelhos franjudos entediados do planeta) poderia ser a salvação do Rock n' Roll? Ainda mais quando o semanário britânico New Musical Express coloca o disco dos caras nas nuvens? 

Pela capa (com 'ponta' de Burt Bacharach) e pelas péssimas referências acima, você não desembolsaria nem 25 centavos por este CD, não é? Pois então agradeça a este serviçal por mais um favor prestado a seu bolso. Pode comprar tranquilo este Definitely Maybe, sem medo de ser ludibriado. Ele é honesto.

Oasis é um grupo que adora o palco, posa com os seus instrumentos e caga para o que a mídia pensa sobre eles. Isso não lhe cheira a Suede? Só que os caras merecem durar bem mais do que aqueles 'perobas' glitter.

Aqui há grooves de guitarras semi-acústicas sustentando as exímias composições de Noel Gallagher e aquela marca de quem leva a coisa realmente 'à sério'. Todas têm aquele caráter 'chapadão' típico do rock inglês.

Com certeza, não vão revolucionar porra nenhuma, como se anuncia por aí. É só mais uma banda que merece figurar na sua CDteca entre o Mudhoney e o Urge Overkill. O que já garante para eles uma cobertura com piscina no céu dos rockers."

Alexandre Rossi.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Popularidade fake

- ... e esqueci de dizer: muito bonita aquela foto que tu postou!
- Qual?
- A penúltima, com uma praia ao fundo. Que lugar era aquele?
- Ah, era em Cidreira, dia desses. Ficou realmente bonita... mas só deu 59 likes até agora.
- E desde quando isso conta alguma coisa?
- A mesma foto, igualzinha, no perfil da Mari deu 134!
- Psss... tá, e daí?
- E daí que parece que ela tá mais bonita, sei lá!
- Ai, ai... olha, Jana, eu entendo tua baita preocupação e até entendo tua lógica. Mas quer ver que, apesar de ter fundamento, tua lógica é perniciosa?
- Perni-o-quê?
- Saca: dos 59 likes que tu recebeu, digamos 40 sejam de guris. Certo?
- Certo.

- Os que não são veados (cerca de 35) querem, provavelmente, te comer. Certo?
- Hahaha, é... pior que é.
- Então, tu daria pra esses 35?
- Lógico que não!
- Provavelmente o plêiba pra quem tu quer dar nem curtiu ali... mas, enfim, desses 35, talvez só uns 2 ou 3 tenham a chance de sair com uma mulher linda que nem tu.
- Ai, brigada!
- E vê o caso da Mari. Se multiplicarmos proporcionalmente o número de gente que curtiu a foto dela, vamos ter uns 70 potenciais comedores da guria. Te pergunto (tu, que conhece ela): a Mari daria pra esses 70 caras?
- HAhaha, nem pensar! Fresca do jeito que é, se der pra 1 já vai ser lucro!

- Então, porra?! Que diferença prática tem se tu tiver 50 ou 100 likes na tua foto, se tu termina nem querendo satisfazer o machaiêdo que vai lá curtir? Só quer deixá-los na vontade?
- HahAHAha! Pois é...

- Prova cabal de que esse comportamento, o de provocar, o de deixar a galera babando e de ficar beiçuda por não ter tal número de 'legaizinhos', é absolutamente pernicioso
- Tá, não gostou da foto, é só dizer!
- Não, eu gostei... mas, enfim, não vou te comer mesmo.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Super Ego

- Quê?! Ah, com certeza prefiro uma guria vestida de prenda a uma vestida pra baile funk.
- Sério?
- Sério. Pó perguntá de novo pra mim.

Eu e meus diálogos com meu Outro Eu.

terça-feira, 5 de março de 2013

Flores embaixo do meu travesseiro


Dar flores. Um dos mais ardilosos argumentos materiais já inventados pelo homem. Provavelmente proposto por uma donzela-em-perigo:

- Lêidi, tu sabes que te amo!
- Oh, Lórdi, então me prova isso!
- Como poderei provar esse amor maior que o mundo que nutro por tua pessoa, Milêidi?
- Com um doce e bucólico buquê de rosas silvestres, nobre cavaleiro!
- Pfff... taqueopariu...

Mas eis que apesar do preço empobrecedor de trabalhadores-braçais que um amontoado de plantas tem, o troço volta e meia funciona. Sabe, sempre achei que essa parada fosse mó clichê (bom, não deixa de ser) e tentei comoventemente usar a quebra de padrões como marca própria.

Mas testei antes. Não é assim "Pá, tive uma ideia do caralho!", não. Testa-se a teoria em amplo período de tempo e em várias cobaias até chegar próximo da perfeição.

Comecei com a Fernanda, namoradinha que estudava francês. Ia visitá-la de moto na cidade ao lado e achava que em pouco tempo teríamos um relacionamento próspero e duradouro. Inovei: em vez de flores de floricultura, sementes de amor-perfeito. Ela plantando soaria como o cultivo do amor entre os dois. Não te parece genial? Pois é, pra mim parecia.

E Nandinha achou o máximo. Plantou mesmo, diz ela. O namoro durou duas semanas. 

Depois, testei com uma mocinha de longe, outro estado. Júlia era uma mulher interessante e que compreendia bem esses desvios de padrões. Num de nossos esporádicos encontros, lá fui eu com o mesmo pacotinho de amores-perfeitos. As sementes não vingaram, mas o namoro foi um pouco mais longe: 1 ano e 8 meses.

Acha que me dei por vencido? A parte alemã dos meus genes não deixa eu desistir fácil. A próxima era Laiana, e tentei essa parada de novo. Pacotinho de sementes da mesma flor.  Vamos combinar que amor-perfeito é bonitinho, né? Plantei junto com a guria, pra ter certeza. Tenho mão boa para fazer as plantinhas nascerem, tem que ver. Germinaram. O cachorro comeu tudo. Namoro que durou 5 meses.

Já abatido com isso, parti pra outro teste. Mencionei o assunto 'flores' com Isa:

- Bah, não gosto de flores...

Cobaia perdida. Nem o fato de eu ter feito um jasmim nascer de uma flor adiantou. Namoro durou 2 anos, com mais um ano de idas e vindas. Nem insisti com as sementes.

Entende? Eu precisava de algo que compensasse o complexo de feiura que carrego desde o 2° grau. Um dia vi uma lista como nomes de guris na mesa de duas meninas interessantes. Inocente, acreditei que fosse "Os Caras Mais Legais da Sala".

Não era. Fiquei em vice no campeonato interno dos mais feios. Perdi o título pro colega que sentava ao meu lado. Foda.

Com a próxima namoradinha, alterei levemente a estratégia. No lugar de um envelopinho com girinos de flores, um vasinho com uma já crescida e devidamente cultivada. Uma violeta, para desequilibrar a equação. Muito bem recebido o presente, pouco deve ter durado na mesa de trabalho dela. Assim como a relação: três meses.

Mesmo sendo brasileiro (ou germânico, como antes admitido), quase larguei de mão a pesquisa de campo. Não é fácil ter uma ideia fofa de cultivo de um romance e ser solenemente ignorado nas boas intenções. Então, seria mesmo o tal buquê de rosas a grande arma para atingir em cheio os corações femininos? Não, não podia ser.

Com Júlia busquei outra alternativa: uma florzinha simples, dessas que dão em árvore e tu estoura com os dedos. É mó charme a parada! E é meio sulamericano: os ianques não conhecem, vejam só. Então, dei uma desses botões pré-fechados para a moça, uma linda moça, e ela adorou!

Relacionamento? Dias, não mais que isso.

Quando vê, o esquema é usar os já defasados carros de mensagem na porta do trabalho da pretendida:

- Atenção, Fulana! Essa... é uma mensagem de amor!
(entra o som do clarinete de Kenny G ou o tema de Titanic e sai eu do Celta com rosas brancas polvilhadas de purpurina e cola cintilante e um texto padrão ao fundo)

Há alguma estratégia para as oportunidades vindouras? Nem eu sei. Basicamente esperarei que os discos de vinil aqui me deem alguma luz sobre como proceder nessa dura batalha pela arma perfeita na arte da conquista. Até lá, sem bombons, flores e cachorros-quentes.



sábado, 13 de outubro de 2012

Textos provocantes

Sempre julguei que eu precisaria sempre de Bukowski ou Salinger para me sentir provocado a escrever. Chego a conclusão que, sim, preciso constantemente ler esses dois filhos da puta para botar algo que preste pra fora.

Mas nessas de gastar horas digitando sobre a porcaria da minha vida, vi também que apesar de sempre querer que os outros leiam o que escrevo (insisto: acompanhar meu blog mostra irrecuperável habilidade na arte de ser um vagabundo), não tenho a mais rasa paciência para ler o que os outros escrevem.

Deve ser ciúmes. Tipo, vem alguém e me indica "porra, Marat, lê a droga do meu blog". Mando tomar no cu e vou ler, claro. É claro que há textos que deveriam ficar isolados ao limbo. Mas ultimamente ando me deparando com bons autores, que conseguem expressar suas ideias de maneira a parecer uma facada no bucho. Linhas que me fazem suspirar e ficar apaixonado pelas autoras (não pelos autores, evidentemente). Sinto-me saudavelmente provocado, do tipo "caralho, eu queria ter escrito exatamente assim!".

Tá pensando que vou fazer propaganda de blog aqui? Esquece.

Certa vez fui na casa da Mimi, uma amiga minha, dessas gatas pra caralho e que te fazem dormir pensando em se afundar nas carnes de alguém. Fui lá um dia e inventei de dizer que eu escrevia poemas.

- Ai, Marat, que legal! Eu também escrevo!

Medo. Ela me mostrou algo parecido com um caderno cheio de páginas escritas. Não eram poemas, óbvio. No máximo, arremedos de prosa poética, se é que tu conhece as terminologias da literatura.

- Gostou, Marat? Sabe, sou bem emotiva...
- Não, sim, gostei, claro. Bem... forte, né?


Nossa, fortíssimo. Naquele momento, vi concretizada mais uma de minhas teorias de boteco.

A mulher escreve porque precisa. Mulheres em geral querem desabafar, sem necessariamente passar por sessões de consolo. Um caderno parece ser um bom ouvido em momentos de paixonite ou mágoa. A guria sai toda perfumada e embonecada, aparece no bar e vê seu amor ficando com outra, certamente uma vagabunda. Crise de choro, "Que raiva!", amigas alisando cabelos e outros caras querendo alegrá-la. Ela chega em casa e gasta uma Faber-Castell inteira contando pro pobre do caderno o quanto aquele cara mexia com ela e que agora tudo vai ser diferente. 

Passada a tristeza, ela ainda mostra pro cara (que já pediu desculpas por ser cretino e retomou o caminho) o quanto ele a fez sofrer. Lindo. Mas isso mostra o viés da escrita feminina. 

Uma mocinha escreve sempre vendo as coisas de seu próprio ponto de vista. Suas impressões em relação ao mundo não ultrapassam o limite do surreal, são algo fácil de sentir e de criar rápida empatia pelo relato. E não necessariamente a autora tá interessada em adaptar isso a uma visão de alguém que porventura vá ler. 

Meninos escrevem com receio de serem mal interpretados. Portanto, acabam 'comercializando' sua escrita. Eles não se entregam totalmente, criam fatos para disfarçar algo e veem tudo de um ponto de vista de fora de seu mundo. Isso os deixa protegidos de qualquer avaliação de personalidade, pois com um personagem descolado da persona fica fácil perder o pudor. Fazem tudo sempre pensando que alguém pode realmente ler aquilo.


Claro que tô generalizando (só chatinhos ficam bravos com isso). E em geral também, o cara que for emotivo e confessional como a mulher angaria para si um público maior. A moça que rabiscar despudoradamente como um homem surpreende positivamente. Em ambos os casos, cabe um cuidado com a língua-pátria, que é o molho das ideias. Parece receita de um blog perfeito, eu sei. Mas se eu mesmo tivesse um, não estaria remando contra a maré de contas que me chega todo mês. Eu ia é ganhar dinheiro com minhas confissões... todas sem pudor nenhum.