domingo, 27 de junho de 2010
Butiás de bolso
sexta-feira, 18 de junho de 2010
A televisão me deixou burro

Insistência
- Total... mas qualé? Vai querer jogar pelo outro time agora, seu merda?
- Não, cara... só falei que são perigosas!
- E?
- Gosto do perigo, meu. Isso é que é foda... hora dessas ainda tomo no zóio.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
O menestrel dos dissabores urbanos
- Tá, mas vamo comer pela rua mesmo, né? Eu vou no pescoço daquele cachorro-quente da República e já eras!
- Eeeei, ô, meu! Tu come esses troço na rua e depois morre, hahahah!
- Sugere o quê?
- Vamo comê no (nome censurado)... bem melhor.
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Voto vencido que geralmente sou, acompanhei meus amigos cretinos até o lugar citado, disposto a doar meu ordenado ao capitalismo selvagem da capital de todos os gaúchos. Pedi um infalível xis-frango (desses que, volta e meia, me presenteiam com um ossinho perdido no meio das carnes) e cuidei o atendimento. Foi ruim. Sinal de comida boa.
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Mas como toda regra tem lá sua maldita e deslocada exceção, veio uma droga de um xis-prato, tipo de restaurante, a coisa mais sem graça, boçal, bundona e insípida que há. Saca que eu prefiro xis de pegar com as mãos? Prefiro ter aquele domínio da presa, como quem gruda os dedos no braço da primeira china que aparece se arreganhando pro vivente. É uma espécie de nível de dificuldade que dá charme ao processo como um todo. Tem xis na Cidade Baixa pré-programado para deixar impossível o cara comer a merda do alimento rapidamente. Só que o negócio esfria uma hora; não é como os cachorros-quentes famosos de Porto, que, quentes ou frios, continuarão a ter formato de barca cheia navegando pelo Létis.
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Essa parada de nível de dificuldade, outrora retratado com autoridade incomum por mim mesmo, aqui no RWOL, tem lá todo um cuidado para que não extrapolemos os limites do minimamente aceitável. Tipo, tá, o malandro vai numa churrascaria pra matar a fome e sentir o gostinho defumado de carne de boi e tudo o mais... mas não é um churrasco! O tri mesmo é juntar a bagaceirada, tomar ceva ou capirinha (Fúlvio faz umas de derrubar a galera), espetar os cortes bovinos, salgar, fazer fogo, abanar a porra dos carvões, meter a droga toda pra assar e cortar, enfim... tem ritual. Quem prefere um CD do The Who se o Nino Lee tem um triplo dos caras, um branco, outro azul, outro vermelho, justamente para gastarmos minutos olhando pros discos e mirando a agulha nos sulcos? Quem compraria chimarrão em caixinha, se a graça é justamente montar a cuia, a erva... falando em erva, quem compraria maconha pronta? Bom, não é o caso agora.
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Todos numa faceirice cuiuda e eu já de beiço. Frescura minha, eu sei, afinal o que não mata, engorda... e certamente isso valia para uma alfacezinha minúscula que se mexia pelo prato do Mará. Espantado, conferi de perto e vi que era uma larvinha verde, simpática e fofa, que fugia do meio das verduras de meu xis-prato. Tadinha: se viu perdida e zelou por sua vida.
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Como eu, em princípio, zelava pela minha também, tratei de sentir nojo. E ri. Os camaradinhas já ficaram receosos para com seus xises. Provavelmente alguma amiga de Pituxa, a larva quente, deveria a essas alturas estar sofrendo com meu tubo digestório. Chamei o garção:
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- Ô, meu guerreiro, seguinte: bah, tem uma alface ambulante no prato do beleza aqui.
- Opa... quer que façamos outro xis?
- Nanana, já eras... vou meter esse mesmo. Foda-se!
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Tem coisas famosas que realmente te levam a ser convencido de que tais coisas são boas. Fui a um show do Rappa num evento de uma rádio local, aaaaanos atrás. Na real, fui ver Capital Inicial. A banda de Falcão veio antes. Pensei: "Porra, esses caras são tri falados, ganham prêmios cretinos e o escambau, e só conheço 'Vapor barato', 'É dia de feira' e 'Pescador de ilusões'...". Fui para ficar chapado com o som deles. Queria que me mostrassem o porquê do auê todo.
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Lógico que tomei no cu tranquilo. Era para ser um show de Rock, mas vi um de rap, pois Falcão não canta ao vivo; ele fala as músicas. Ouvia o baixo alto (!) e embolado, sem ser culpa da banda. Sentei nas britas, cultivei uma bermuda suja de mijo, cerveja e poeira. E achei tudo uma merda.
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Fim da comelança. Fomos pagar. Galerinha desembolsando tartarugas-marinhas e eu na espreita.
- Ô, rapaziada, quem é o cara do xis que deu problema?
- Opa, sou eu, campeão!
- Tá, seguinte: não precisa pagar. Fica por conta da casa.
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Nessas horas é que penso que os bichinhos de Deus, que tanto afofam o húmus necessário para as arfácia crescerem, são bem-vindos em nossa alimentação e ajudam no capitalismo selvagem. Com o dinheiro poupado, comprei uma jaqueta jeans suburbanolondrina num brechó monmartriano da Lima e Silva.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Desistir? Nunca!
O papo ia bem. Regado a bom vinho, em um dos bares da República, rua razoavelmente metida a boêmia na capital.
— Sim, eu já vi essas trilogias! Achei legal demais. Mas adorei também “O fabuloso destino...
— ... de Amélie Poulain”, sei qual é. Hehehe... vi com uma ex-namorada minha. Ela pirou que queria ser a Amélie e andar de lambreta por aí. Mas eu tenho uma moto sem freios e ia ficar deprimente.
— Ai, que viagem, hahah! E música? Gosta de Teatro Mágico?
— Mmmm... tu gosta de Legião Urbana? Smiths?
— Sim, sim, mas e de coisas novas?
— Sei lá, sabe? Sou meio resistente por natureza, mas bandas como Valentinos, Pública, Fuzzcas... acho que eu posso citar essas. Uma hora vamos num show deles por aqui.
— Eu pago o vinho!
— Eu pago o estacionamento...
— Nem parece que a gente já tá conversando há horas, né?
— É, é... mmm, hmmhmhmh...
— Marat... que que tu tá fazendo?
— Hã? Olha... na minha terra, a gente chamava isso de “estou tentando te beijar”.
— Ai, na boa?! Não parece meio cedo? Sério, Marat... não me sinto bem ficando com um amigo meu.
— Tu não fica de jeito nenhum com amigo teu, é?
— Não fica brabo. Eu sou assim.
— Então tu pega a droga do Teatro Mágico e enfia no teu cu, xaropona do caralho! Sua bundona de merda! Vai cagar no mato com Amélie Poulain e sei lá mais quem, porque essa porra é chata pra caralho! Tua vida deve ser uma merda de um simulacro da realidade, no qual tu deve se achar a enviada da porra da sabedoria e castidade, mas não suporta um fim-de-semana sem dar pro primeiro sujeira que aparecer na frente!!!
— Credo, guri idiota! Tu tá louco? Que que eu te fiz, meu Deus? Olha que ridículo! E eu pensando que tu era meu amigo, hein? Nossa...
— Bem, agora que não sou mais seu amigo, vamos continuar a partir da cena do beijo?
— Credo! Nojo!
Ainda entre o riso e a sensação de ser um eterno loser, ajeitei as cadeiras, paguei o vinho, o estacionamento, o pato e mico.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Confissões de meia-idade adulta
... e tô ouvindo uns lances mais da antiga e tal...
Dóc diz:
Pode crer... mas tipo o quê? Tropicália?
Jr. diz:
É, isso aí! Uns negócios assim...
Marat diz:
Bah, pra ti que curte percussão, deve ser massa pra caralho!
Jr. diz:
É... tem umas coisas bem foda ali...
Costela diz:
(pita um crivo...)
Dóc diz:
Deve ter uns lances massa nesse pessoal dessa época, tipo Novos Baianos, Mutantes, Tom Zé...
Marat diz:
Cara... tenho que falar uma coisa: não gosto de Tom Zé.
(momento de incredulidade automática)
Marat diz:
Sério, gurizada... bah, não tenho saco. Aliás, acho que, com 29 na cara, depois de ter conhecido o mundo que conheci e conversado com todo mundo que conversei, já posso dizer com autoridade: não acho a mais vaga graça em Tom Zé... nada contra, mas... porra!
Dóc diz:
Eu tenho umas coisas do Tom Zé em casa, mas não ouvi muito... mas tem uns troços tri.
Jr. diz:
Ah, cara, eu curto Tom Zé...
Marat diz:
É? Mas tu ouve em casa isso? Ou só curte por ter informação musical?
Jr. diz:
... meu...
Costela diz:
Ô, Jr., diz DUAS músicas do Tom Zé.
Marat diz:
... e não pode ser "Batemacumba" e "Namorinho de portão"!
Jr. diz:
É... tem umas ali...
Saimos, por via das dúvidas, de fininho daquele churrasco. Não seria nada bom para nossos ouvidos ou reputação que as pessoas soubessem que havia roqueiros que não ouviam Tom Zé por perto.
Jr. diz:
Tá, mas e Secos & Molhados, Mutantes, Novos Baianos...?
Marat diz:
Do caralho! E Gal Costa também.
Legal, legal...
sexta-feira, 28 de maio de 2010
O negócio é não ser um bundão cult
Se bem lembro, eram 6 caras e 4 meninas. Costela já estava com sua meio-namorada; essa não contava. Sobraram 3 moças e 5 cidadãos famintos. Quando as luzes da sala se apagaram, após um verdade-ou-consequência do inferno, uma delas, gêmea gata de outra, já tinha caído nas ricas graças do mais chatito do grupo, o cão matreiro Técnico. Logo, a outra se bandeou com Rodrigo para o andar de baixo da casa.
Ficaram eu, Fúlvio, o dono do Fusca que nos carreteou até a casa e uma menina um tanto quanto lado B, a Bebel. Na cabeça e no físico.
- Tá, Marat, vai pegar ali ou não, porra?
- Sossega... tá na mão pra mim.
- Então vai logo, que senão eu vou!
Fúlvio não era de perder tempo. As luzes apagadas, os guris zanzando nervosos em volta como moscas na merda e eu sentado no braço do sofá, como um palerma esperando a droga da timidez me deixar fazer em paz as coisas que eu curto nessa porra de vida. E Bebel ali, paradita, pensando decerto "caceta, mas só tem cria nessa casa...".
Eu havia conversado com ela uns dias antes num posto de gasolina. Enquanto as gêmeas faziam o escarcéu clássico de meninas com hormônios em polvorosa, Bebel era mais comedida e engatou uma "troca de ideia" de quem, de fato, quer conhecer o oponente.
É nessas conversas em que acabamos sempre caindo no gosto musical da pessoa. E para mim isso é quesito eliminatório. Mas eu tenho a sorte grande desse mundo e sempre papeio com mulheres oriundas de ambientes esnobes. Arrota-se fino caviar quando come-se melequentas sementes de mamão.O legal não é dizer que gostam de Beach Boys... não, eles são muito bregas! O tri mesmo é catar lá do universo paralelo alguma banda desconhecida e adorá-la justamente por ser desconhecida, pouco importando se é boa ou não. Tem é que ser diferente.
Muito chato isso. Numa conversa, sempre estaremos com a impressão de estar aprendendo (o que é bom) com a pessoa errada e mais chata do pedaço (o que é enfadonho). Sim, acontece com meninas isso, principalmente em se tratando de fêmeas da capital.
- Eu curto muito Suburban Kids With Biblical Names... nossa, muito massa! E tu, Marat?
- Olha, tchê... tô ouvindo ultimamente Eric Carmen...
- Ui, credo!
Creio piamente na teoria que um ser humano chega a um nível tal de cultismo que ignora as coisas mais farofas que há no mercado fonográfico mundial. Ou arranjam alguém que sempre foi um bosta e resolvem erguê-lo à condição de mestre ou poeta mal compreendido. Bundões! É gente que não tempera a porcaria da massa Miojo com o tempero artificial clássico, por achar esse negócio padrão demais.
No caso específico de Bebel foi até tranquilo. Batemos os gostos de cara e ela estava "pré-trovada" para a noite da casa do Costela. Baseado nesse preceito besta, lá fui eu testar minha terrível timidez, já citada. Os guris pressionando, eu querendo a Bebel e ela me querendo. A silhueta de seu crânio de cabelos desarrumados, mas presos, estava sob efeito da luz da rua, num efeito cafona e convidativo. Eis que o brilhante poeta aqui teve a louvável ideia de se expor da maneira mais estudada, arrebatadora e que provava todo um estudo até então. Dei no meio mesmo:
- E aí... Bel... que tal a gente ir prum cantinho?
- É, legal... onde?
- Ali, naquele sofá!
Gênio.
Funcionou, óbvio. Ficamos nos enrolando durante HORAS e foi tudo bem...
... ou não. Saldo da noite: Rodrigo viu sua gêmea mijando no pátio da casa, Técnico disse que comeu umas 3 vezes a outra (eu não vi, deixo bem claro), Costela farunfou sua menina e eu sai com os dedos com o cheiro agridoce da intimidade de Bebel. Tomamos um café na casa do beleza e aí que eu me liguei o odor de minhas mãos parecia... látex. Porra (literalmente, talvez)!
Oh, sim, ia esquecendo: as gêmeas levaram uns discos do Costela emprestados para sempre e achei Bebel, anos depois, vestida de tal maneira masculina que fiquei preocupado com minha reputação ao titubear entre um beijo na bochecha ou um aperto de mãos.

