segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pele vermelha


Meu vô trabalhava em algum escritório capenga das ferrovias gaúchas, em Porto Alegre. Dá pra imaginar que, na década de 40, não devesse ser esse lugar um lindo prédio de escritórios para bem vestidos executivos.

Como boa parte da população de casta média-baixa da capital gaudéria, meu vô era Colorado. Torcedor clássico do Inter, apesar da cor branca alemã que lhe empalidecia a tez. Apontar esse detalhe é mister para ambientar o padrão de torcedores dos times grandes de Porto. 

O pouco dinheiro que entrava vindo do ferrocarril dos pampas e do aluguel de pequenos quartos na própria casa do meu vô lhe permitia certas loucuras que hoje seriam comuns. Na década de 40 e 50 não era. Os ônibus eram barulhentos, desconfortáveis, as estradas eram um acinte às suspensões e a oferta de lugares onde dormir e comer era menor ou pior. E lá ia o vô pra ver seu time preferido, "somente" o Rolo Compressor, máquina esportiva de tocar terror nos adversários!

Meu vô levava meu pai, ainda na versão kids, para ver jogos no Estádio dos Eucaliptos, casa vermelha pré-era Beira-Rio. O velho (o pai) conta emocionado, mas numa emoção contida que lhe é peculiar, de como era entrar nas tribunas e ver os jogos do time mandante.

Daí, veio o Beira-Rio. Papai, nos anos 80, chegou a pagar mensalidade do Parque Gigante, detalhe que foi descoberto recentemente. Mas me deu camisetinha do Inter quando eu fui criança. De Colorado pra Colorado... vô, filho e neto.

O vô, representante do escopo popular da torcida alvirrubra, não viu a inauguração do Gigante da Beira-Rio. Infelizmente, ele também não viu o mundo pintado da cor do sangue em 2006.

Mas no dia em que eu sentar novamente no estádio, agora reinaugurado e elevado à pujança que talvez tenha passado pelos poucos cabelos do meu vô, eu vou guardar um lugar ao meu lado. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

O charme das pernas tortas

Não, nada a ver com o craque Garrincha e seus cambitos rengos. A parada aqui é mulher mesmo, apesar de isso estar tão out hoje...

Insisto que o mundo precisa de menos edição gráfica (aos leigos: Photoshop, que, sim!, faz milagres). A beleza dos corpos vem de algo natural... de dentro pra fora, pra usar um recurso mais popularesco. Os gregos, aqueles veados, já sabiam disso muito antes de vossos antepassados procriarem. Não é à toa que ainda se venera a arte clássica.

Se tu pegar qualquer livro de História (que seja da Arte), vai ver que a mulherada até o Renascimento era retratada com a opulência que os músculos e a gordura gentilmente localizada assentava às figuras. Não raro enredo pra punheta da gurizada da época. Ou de hoje.

É no detalhe escondido que mora o almíscar reservado para poucos. Justamente porque poucos se deram conta (thanx God!) de que uma mulher com corpo irretocavelmente marombado e barriga tanquinho ou negativa é muito... óbvio. É como aquele vinho barato de 30 pila que tu compra no supermercado e acha que tá levando o fino das vinícolas argentinas.

E aí venho a público declarar (rufam os tambores!) que prefiro as pernas tortas às trabalhadas com leg press. Não aquelas que deixam a aparência de que a criatura desceu de um potro taludo e não conseguiu endireitar as canetas. Tenho minhas preferências, mesmo dentro das ditas anormalidades. Falo daquele desenho que começa com as coxas próximas e o joelho faz as canelas se afastarem. Se tiver um pé suavemente virado pra dentro, chego aos píncaros do fetiche.

As pernas tortas são um acinte ao padrão do povo. Elas dizem "olhe para nós: ainda somos pernas e temos um desenho único e divertido! Não precisamos ser certinhas para termos nosso lugar sob o Sol!". Elas espinafram deboche na simetria correta e na proporção áurea. Ignoram o esforço dos hormônios masculinos destruidores de vozes femininas e dão uma nova opção aos olhos.

Não sei se um dia as meninas vão parar de usar botinhas ortopédicas. Mas até lá, que algum editor de imagem esqueça de endireitar o que nasceu torto.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Funk, Do it Yourself & o punk da Favela

A seguir, um texto (publicado originalmente no Facebook, lúcido, direto, quase cabeça, enorme e arrasador de velhos alicerces escrito por meu amigo Rômulo Carniel (frise-se: umas das top 3 mentes mais inspiradoras com a qual tive oportunidade de conviver na minha pós-adolescência). Antes que pareça apenas rasgação de seda, digo que o texto botou até eu, notório cabeça dura reaça, pra pensar.

"Mas vou dizer que eu nutro simpatias pelos manos da perifa. Não pertenço àquele universo, não me vejo representado nas letras (tá, no ostentação rola uma identificação de cantinho: quem não quer contar plaquê de 100 dentro de um Citröen?), muito menos compro os cds ou baixo as músicas. Porém, todavia, no entanto, a sacanagem intrínseca e espontânea da parada me desperta bem mais o interesse e a simpatia do que, por exemplo, a posturinha forçada do bom-mocismo temperado com pitadas bem dosadas de "sensualidade latina"do sertanejo universi(o)tário. A canastrice do Funk me soa mais genuína e verdadeira.

Sem falar que todo roqueiro de mente aberta que se preze, aquele que cultiva o senso crítico, que ainda não perdeu o senso de humor e que tenta manter vivas as virtudes cristãs (ou anti, vai saber...) da irreverência e da iconoclastia - que mais de uma vez na história recente foram a reserva de forças que salvaram o Rock'n'Roll de morrer afogado em seu próprio marasmo auto-replicante - procura se manter à distância máxima dessa retórica bundona de "superioridade intelectual", "bom gosto", "habilidade musical", "letras cabeça", e blá blá blá de "poesia" e “lirismo”. Não que habilidade, boas letras e bom gosto não sejam legais, essenciais até. Ok, mas além de conceitos pra lá de subjetivos e arbitrários, sozinhos são só encheção de saco e de linguiça, não enchem barriga de ninguém que tenha cérebro e tripas saudáveis, se me entendem. E não foi apenas disso que o Rock - e toda a música Pop, na real - sobreviveu, mas sim da energia e da atitude para chutar a porta da frente toda vez que foi preciso.

A verdade é que boa parte do Rock Nacional vive de passado. Não apresenta nada de novo - salvo honrosas exceções que não tocam em muitas FMs. Não apresenta perspectivas de futuro além de se tornar outro fóssil cultural, venerável, porém estanque, aos moldes do Jazz e da velha MPB. Ainda assim, quer ter a empáfia de criticar toda a manifestação cultural que não se guia por seus parâmetros roqueiros de qualidade. Puro mimimi de quem engessou a própria criatividade e está satisfeito com isso. Ao invés de assumir velhas posturas que antes apenas a intelectualidade bundona da velha MPB adotava, os "roqueirões"de hoje deviam era colocar os miolos - e se possível as vísceras - pra funcionar e tentar canalizar a força bruta do funk carioca para algo que realmente sacuda as estruturas, que dê uma renovada no cenário. Tipo o Edu K fez há quase 20 anos atrás. Ou a Comunidade Ninjitsu, injustamente deplorada pelo adolescente careta que fui. Ironicamente, precisei conhecer, já na idade adulta as bandas dos anos 80, 70 e 60 que eles sampleavam para depois sacar o quão interessante foi a proposta de perverter aqueles hits com refrões irrevrentes de funk carioca.

Não se trata de negar o passado. O que foi bom sempre vai ser. Clássicos são clássicos, mas eles devem ter outra função que não apenas inspirar veneração e cópia. Temos que ter a coragem e o peito de desconstruir os clássicos, de pegar nossas velhas Rolling Stones e picotá-las para fazer uma nova colagem, se possível com retalhos de outras revistas e livros diferentes, se é que a metáfora se encaixa. Afinal, não foi de mistureba de estilos, bebendo direto nas fontes dos guetos e das ruas, simplificando e adaptando, que o Rock surgiu e se popularizou? Não foi saindo para a rua e sacando o que estava acontecendo ao redor que o Rock se renovou tantas vezes e sobreviveu a todas as armadilhas da indústria cultural, muitas criadas por ele mesmo?

Até quando o Roqueiro brasileiro vai encarar a música como se fosse uma religião imutável e tudo o que for diferente - e mais popular - como uma heresia execrável? É só música, pô! E pop, ainda por cima! Não é música erudita, cheia de regrinhas matemáticas e discussões técnicas. Esta tem seu lugar garantido na história, está lá para os estudiosos e ainda viva nas salas e teatros. Na música popular (sim, o Rock é música popular) a técnica, a forma e o estilo podem até ser importantes, mas servem a outros objetivos, talvez não tão nobres, porém maiores e vitais: à celebração, à diversão, ao ritual de acasalamento em volta da fogueira, o chacoalhar de esqueleto dos nossos antepassados pra espantar o frio, a fome, o medo e o tédio. É pura carne, não nos esqueçamos! E o Funk Brasileiro, abstraindo os investimentos maciços de grana que a indústria cultural vem fazendo a cada ano no cenário, ainda cumpre bastante bem esse papel primitivo, que no passado o Rock cumpriu tão bem e ainda pode cumprir: dar vazão aos instintos básicos, que sem isso enlouquecemos ou nos tornamos cascas vazias.

Será que as letras do Rock são tão superiores ao Funk assim? Os punkzões intelectuais de plantão pararam para ouvir as letras dos Dead Boys, os “Sex Pistols de NY”? Só pra avisar: são de uma bagaceirice de fazer sorrir o MC Catra no inferno. E os Fãs do bom e velho Hardão, pararam pra pensar no quão superficial são algumas letras do Kiss, por exemplo? E o Guns`n`roses, com seus clipes apoteóticos, com direito a casamentos faraônicos, destruição de carrões em penhascos e muito veludo e cetim rasgado, são menos ostentatórios do que o MC Guimê e sua coleção de motos e cachorras? Só os MCs são ridículos por usar correntão de ouro? O Funk faz apologia à violência e às drogas? E Oo Rock é santinho então, não cultua bad boys transgressores, seus anti-heróis não se drogam nem agridem ninguém? Falar do Funk então porquê? Por causa da primariedade precária das músicas? Mas os  Ramones e os Sex Pistols? Não eram toscos pra caralho quando surgiram? Falar da batida eletrônica repetitiva? Mas e as bandas do sinth pop e do eletro oitentista, que começaram a usar mais instrumentos eletrônicos? O Bauhaus é Cult entre o pessoal “cabeça” que curte New Wave e Pós Punk, e tem alguns sons que são puro ruído de sintetizadores se repetindo ad infinitum. E os Beastie Boys, que misturaram o Punk com o Hip Hop, abusando de samplers e batidas eletrônicas? O Funk Carioca é imoral e só fala de sexo? Mas do que falam mesmo muitas das letras do Rock, de todos os estilos? O Chuck Berry, o Little Richards e o Jerry Lee tavam falando de quê quando chamavam as adolescentes para chacoalhar até virarem grandes bolas de fogo? E o Elvis rebolando pra caralho? Gente, o John Lennon (pra alguns o verdadeiro santinho doce e intelectual do flower power, pois sim...) deu a morta faz tempo: tudo acaba em sacanagem e rala coxa. Não ouviu quem não quis, ou tava chapado demais em sua própria ingenuidade embalada a LSD. Roqueiro adora apontar o moralismo dos outros, mas quando dá pra ser moralista...

Os MCs do Funk brasileiro e seu público cativo certamente estão alheios a esta discussão, como certamente o Bill Halley e seus cometas, o Buddy Holly e o Gene Vincent também estavam lá em 1950 e poucos, quando começaram a simplificar o rhythm and blues e outros ritmos da música negra americana para consumo televisivo de um público branco, nascido no pós guerra e que estava entediado, louco por mudanças e um pouco de diversão. Como eles, talvez muitos funkeiros não tenham consciência de que estão refletindo as mudanças profundas de sua sociedade, num momento de inflexão da história. Muito menos alimentam pretensões revolucionárias e contestatórias, como querem alguns. Porém, apesar de abraçar, desejar e aceitar o status quo da sociedade e da economia em que vivem, involuntariamente a modificam profunda e irreversivelmente. A história se repete e até os resmungos incompreensão e de crítica moralista são similares.

O Rock dos anos 50 era inconsequente e até alienado, mas era cheio de vida e energia. Muitos roqueiros de carteirinha hoje se surpreendem ao serem defrontados com a crua realidade de que o Rock surgiu, sim, como uma modismo quase passageiro entre os anos de 1955 e 1959 , fomentado pela mídia e movido a grandes somas de dinheiro. Exatamente como outros modismos por eles criticados nas décadas seguintes, como a disco music nos 70`s, o Sinth Pop e o New Romantic nos 80’s, as Boy Bands dos anos 90 e início dos 2000 e agora, especificamente no cenário brasileiro da segunda década do século XXI, o Funk – que não é mais só carioca.

Talvez por isso muitos tendem se enganar, achando que o Rock só começou mesmo pra valer com os Beatles desembarcando nos EUA em 64 e os Stones em 65. Engano de vocês, crianças. Começou antes mesmo das reboladas do Elvis na TV em 55. Começou nos botecos de beira de estrada no interior rural dos EUA (Para quem quiser ver um retrato interessante dessa era, indico o filme The Honeydripper), depois nos becos das grandes cidades, com gente semi-analfabeta tocando do jeito que dava, com o pouco que sabiam de teoria musical e com os instrumentos que tinham à mão, tocando Blues, Rhythm and blues e o Ragtime que aprendiam com seus tios, primos e amigos na esquinas e nos pátios das casas. Do mesmo jeito que os manos do funk. Só depois é que foram parar nas gravadoras. E as festas eram que nem os bailes funks de hoje: cheio de gente preta e pobre, botando pra quebrar, dançando até o chão se esfregando pelos cantos e esticando a noitada em algum quarto escuro. Há farta documentação fotográfica desses antros – e é um material que vale muito a pena de ser conferido. Pura diversão, sem neuras, sem as implicações políticas que a malandragem da esquerda sempre quer ver e sem os tabus morais que a direita careta sempre enxerga. Simples assim, como uma letra de funk. O bom e velho instinto de sobrevivência dizendo que, para viver mais uma semana sem enlouquecer nos campos e nas fábricas, é bom soltar um pouco as rédeas e enlouquecer por uma ou duas noites.

Isso é Rock’n’nroll. E isso é o Funk no Brasil hoje. E isso é um sopro de ar fresco na cultura Pop. Se vai ter gente esperta sabendo para onde apontar as velas do seu barco nessa brisa, daí é outra história. Sou cético, mas o primeiro passo é remover a venda do preconceito – Como fez Caetano nos anos 60 ao introduzir a Guitarra elétrica na MPB; ou o Jorge Ben, ao misturar o Samba com o Rock; Ou como o Marcelo D2, misturando Samba e HipHop; Ou como o Tim Maia ao cantar soul music em português; Ou, finalmente, como Bob Dylan obrigou a fazer o cenário do Folk americano e britânico ao colocar no palco com ele uma banda eletrificada de Rock na metade dos anos 60. Sim, o Rock`n`roll era considerado música intelectualmente inferior, minha gente, coisa de adolescente alienado. Até 1965, lá fora, o Folk é que era descolado, coisa de gente maneira, cool e de bom gosto. Primeiro, o folk foi coisa de intelectual de esquerda. Depois da rapaziada descolada, o pessoal Cult que lia os Beats, vejam a ironia, logo os Beats que ouviram Jazz quando o jazz ainda não era careta... E o Rock, bem... O Rock era o Funk do iníco dos anos 60: fazia muito barulho mas não era levado nem um pouco a sério. Precisou o Dylan, com toda a sua aura de “voz de uma geração”, construída com muita canção folk de protesto e visual caipira/descolado/politizado nos anos anteriores a 65 pra chamar a atenção da inteligetzia musical para o potencial explosivo dessa coisa chamada Rock’n’roll. E precisou os Beatles elogiarem publicamente o Dylan para as adolescentes dos dois lados dos oceanos darem um tempo entre um gritinho histérico e outro e prestarem atenção em outros estilos, pegarem uns livrinhos para ler, etc e tal.

Daí pra frente aconteceu o que todos já sabem – e o que todo roqueiro metido a intelectual refinado tenta se convencer de que foi o começo bíblico dos tempos: a psicodelia (que já vinha se desenhando na California, com reflexos em Londres e Nova York, independentemente do que Dylan ou Lennon diziam sob os holofotes) ganhou o mundo e mudou a estética, o movimento hippie (que também já existia desde o final dos anos 50, só ganhou os noticiários em 67 e só chegou no Brasil depois de 69) se popularizou, o sexo deixou de ser tabu, Maconha, LSD, Discussões intelectuais em mesa de Bar, sofisticação das bandas em ritmo exponencial, altas somas de grana na indústria musical, mega festivais, mega shows, saco cheio e desilusão no início dos 70, exageros e paródias na metade da década, revolta, niilismo, punk e skinhead no final daquela década, overdoses de heroína, os iuppies e o pós punk, nos anos 80, o restinho da new wave, o hard farofa, o grunge e o brit pop nos 90, o Indie e o eletro nos 2000, etc etc etc...

O Rock se sofisticou e se diversificou. Mas uma coisa é certa: toda vez que ameaçou paralisar e estagnar, alguém chutou a porta e movimentou as coisas. E isso porque a inquietude, a iconoclastia e a flexibilidade de adaptação estão no DNA do estilo, herdado lá dos botecos e inferninhos dos anos 1940, das favelas urbanas e rurais dos EUA, tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas com muitas aqui do Brasil e do mundo. E aqui ainda temos algo que os “modernos”de 1922 chamaram de “antropofagia”, que nos permite fagocitar tudo que nos interesse. O que não mata engorda, diz o ditado pop. Então porquê temer e torcer o nariz para o Funk? Só porque alguns deles talvez não saibam quem foi James Brown e o que significa groove ou soul? E daí que alguns desses caras não saibam tocar um instrumento ou não tenham noção de tom e tempo? Só o John Lydon podia desafinar? E toda a energia transbordante, todo o Do It Yourself quase punk que essa galera tem, essa vontade de botar o baile pra ferver, colocar a casa a baixo? Não tem valor nenhum? Não gosta das letras, amigo? Pensa numa melhor, faça a sua versão, sabidão! Pegue a proposta sonora e a transforme em outra coisa. As possibilidades estão em aberto.

Quando Dylan plugou sua guitarra, em 1965, os roqueiros olharam desconfiados, mas acabaram aceitando aquela nova forma de fazer som, aquela maneira diferente, mais cabeça de dizer as coisas que estavam sentindo, usando a linguagem que conheciam, a da guitarra elétrica. O pessoal do Folk foi quem torceu mais o nariz, boicotaram shows, vaiaram, crucificaram o Dylam e o chamaram de “traidor do movimento”. Mas no final daquela década, caras como Willie Nelson e Pete Seeger, ao verem sua própria base de fãs crescer, com jovens que, talvez, se não tivesse ouvido o Dylan “plugado”primeiro nunca tivessem chegado ao Folk, deram o braço a torcer. Perceberam a força que aquelas músicas concebidas para serem tocadas ao violão adquiriam com o peso de uma banda de Rock e muitos adotaram formações roqueiras em suas próprias bandas. O Folk sobreviveu e está integrado na cultura Pop até hoje. Tudo porque se obrigou a deixar o preconceito de lado e aceitar o parentesco com o Rock, que era considerado superficial e tosco, o primo pobre da música popular. O Rock, por sua vez, se beneficiou amadurecendo e deixando de ser bobinho, ganhou respeito.

Muitos estão pensando: “esse cara está propondo que o Rock se agarre ao funk para se salvar?” E já vejo pedras sendo juntadas do chão para serem atiradas. Calma. Não sou tão crédulo. Duvido que surja um Dylan no Rock Brasileiro que traga o Funk para o respeito dos intelectuais e o Rock para desfrute da favela. Não existem messias no mundo real e Dylan não foi um, por mais que tentassem fazer crer. Além disso, um messias intelectualizado aqui não caberia no contexto de um baile funk. Prefiro o Edu K cantando “vai popozuda”com uma chupeta de plástico na boca. E acho que faria muito bem para arejar certas cabeças reconhecer que o Funk é, sim, o primo pobre do velho Rock`n`roll no Brasil. E admitir que as festinhas no barraco desse primo andam bem mais divertidas e movimentadas do que a junção de velhos ranzinzas lá em casa."

(CARNIEL, Rômulo, 14 de Febreiro de 2014)


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mini-conto IX

Ciuminho

- Bah, tu nem sabe, amor!
- Que foi?
- Uma guria me contou que o Nelson Mandela morreu! Porra, o negrão foi o cara que melhor agregou valor e crédito ao movimento ativista anti-Apartheid. Tá ligada? Ele lutou por isso, enfrentou 27 anos numa prisão de merda na África do Sul, sofreu cirurgias, saiu da prisão, foi eleito presidente, ajudou o país a se unir criando uma aura em torno da seleção de rúgbi em 95 e hoje é tipo uma divindade pra África. Tipo, claro que ainda há racismo, mas não é mais aquele lance legalizado de escolas pra negros, escadas, ônibus, cargos públicos. Tô chateado, na boa...
- Qual guria...?

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mini-conto VIII

O Capital mata


Dizia Miguel que a turma dele não vivia naquela base de se preocupar com grana e tal. Havia cooperação dentro da pequena república em que eles viviam, no coração da cidade. A comida era compartilhada, as produções artísticas eram divulgadas da mesma forma, o trabalho não respeitava os padrões tradicionais do Capitalismo Imperial que os americanos tentavam empurrar pra gente...

Me pareceu interessante.

Um dia, exatamente 1 mês depois de ele ter chegado à casa, foi a vez de ele pagar o aluguel. E a luz. E a água. O gás também. A conta do IPTU? Essa também.

Era demais pra filosofia do rapaz: juntou seus quadros, roupas de tecido reciclado, a cerveja do dia anterior, o iPhone e se mandou de volta pra casa dos pais, no subúrbio. Um grito de revolta.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Mini-conto VII

 Olha

- Isso é pavê, não pacumê!

Até hoje, Mário acha que todos cometem um puta pecado quando devoram a tal sobremesa.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Mini-conto VI

Curetagem

Jocele deciciu tornar-se vegetariana, depois de ver um vídeo onde porcos são chutados e agredidos até a morte. Vegana, melhor dizendo. Pesquisou alimentos que não levavam partes de animais e iniciou rígida patrulha entre amigos até que uma parte razoável desses se tornasse adepta de sua filosofia.

Um dia, a guria passou mal. Foi-lhe recomendada uma carga de polivitamínicos, para compensar a falta de ingestão natural de determinadas vitaminas e nutrientes. Passou um ano tomando. Ficou ótima.

Mas dia desses parou no hospital, em estado de choque, depois que descobriu que deveria ter pesquisado melhor sobre remédios testados em bichos.

Mini-conto V

 Toda manhã

Postava todo dia dicas de como sorrir e ser feliz num mundo áspero.

Um dia, casou, teve filhos e uma série de contas a pagar.

Mini-conto IV

Cisplatina

Queria invadir o Uruguai para se apoderar das fábricas de doce de leite. Ficou preso na aduana, porque levava cortes de carne gaúcha para o país vizinho.

E voltou a Porto Alegre sem saber que a carne uruguaia é melhor que a brasileira. Morreu esses dias, engasgado com uma colherada de Lapataia.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mini-conto III

La cuadra negra


Ela se encantou com a ideologia e movimento do Black Block. Um dia, participou de uma manifestação. Destruíram a fachada e os caixas eletrônicos do Itaú, porque o banco representa o que há de mais maléfico em termos de Capitalismo opressor de povos emergentes.

Meses depois, descobriu que estava grávida. O pai era do mesmo movimento. As famílias obrigaram os dois a casar, caso contrário não haveria facilidades pra eles. Precisavam de um lugar pra morar, coisas pro nenê vindouro...

O sogro da menina lhes concedeu um empréstimo. Ele era gerente adivinhe de qual banco?

Viveram felizes, mas cheios de culpa, para sempre.

Mini-conto II

Azul tipo o mar


Gremista modelo de ferocidade. Renunciou à Medicina no Brasil por não suportar ver a cor do sangue. 

Foi pra Inglaterra tentar tratar da Realeza.

Mini-conto I

Rojo hasta la muerte


Tão colorado, ele...

Um dia, num ato bobo e instintivo, olhou pro céu durante o dia. Estava nublado e cinza, por sorte. O ataque cardíaco não foi fulminante.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Oitenta



Com algum esforço, consegui tirar a quase dezena de caixas de papelão que sobrepunham a caixa que eu queria: a das fotos. É, poderiam, esses retratos, estar em um lugar melhor que algo que seja de papel. Mas mesmo assim é ali que estavam, debaixo de alguns quilos de documentos e outros badulaques, os registros da vida da minha família.

Comecei a abrir álbum por álbum, a maioria datado da década de 80. Sabe, tem aquela coloração já quase violeta, detalhes granulados e cheiro forte. Fotos pequenas, dos antigos rolinhos Kodak, com o mês e ano da revelação impressos no cantinho.

Era véspera de aniversário; eu estava fazendo 24 anos. Aquilo batia forte... puxa, daqui a um ano, terei um quarto de século de vida. E mais 5, terei trintão! Para quem tem mais que isso é normal rir da cara de quem é mais novo, arrotando experiência. Eu mesmo faço isso quando converso com criaturas mais novas, como se isso desse um valor inestimável a cada frase e entonação proferidas por gente mais vivida.

Quando vi os brinquedos com os quais posei nas minhas fotos, chorei. Tá, não foi um choro fiasquento e piegas. Com o quarto tendo seu ar impregnado com o odor de coisa guardada e música dos oitentistas indo direto nos meus ouvidos, fiz com que a lágrima que insistia em sair do olho direito não tivesse obstáculos. Era uma lágrima sincera, chorada por um sujeito que tem em sua infância um porto seguro a cada vez que se sente acuado num mundo louco como o de hoje.

O tempo passa rápido demais. Sinto a cada dia que a frase “nossa, como passou rápido esse ano...” dita com espanto ao final de 365 dias não é nada imprevisto. O tempo passa, mesmo, rápido demais! Não é exclusividade desse ou daquele ano. E o bolo de aniversário vai ficando pequeno para tanta vela.

Passei por péssimos meses pensando que estava ficando velho e inútil. Ou eu passaria toda minha vida pensando isso e me amargurando ou dava um jeito de engolir em seco e pensar no saudável “ah, dane-se!” que temos de usar diariamente. Quando eu já estava quase conseguindo me convencer que 25 anos seria só um rito de passagem, resolvi questionar uma pessoa com mais cancha que eu:

- Pai, tu acha que o tempo passa muito ligeiro?
- Hmmm... SIM!
- Putz... hã, então, tipo... desde que eu nasci, tu acho que foi muito rápido?
- Hmmm... SIM!
- Ah, meu Deus...

É isso aí! Se é pra ficar velho, que seja para ganhar essa manha de ser rasteiro nas respostas e lúcido para sanar as dúvidas e “tranqüilizar” os mais novos.  

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Latitude


Cheguei em São Paulo e perguntei qualquer coisa:

- Oi, você é de Curitiba?
- Não, na real sou de Pooorto. - respondi eu, com um sotaque do Bom Fim que nem eu sabia que tinha.

Parece que se eu falar pra alguém do Centro do país, via telefone, que sou de Porto Alegre, a coisa sairia assim:

- Sim, sim, de Porto. Não Florianópolis, Porto Alegre. Isso, perto de Gramado... como "onde"? No Rio Grande do Sul, tchê! Nããão, Curitiba é Paraná. Floripa é Santa Catarina. É abaixo de Santa. Acima do Uruguai. Olha... Montevidéu é a capital do Uruguai, é acima disso. Abaixo de Gramado. Não, não é terra de chocolates, nem Serra. Porra, nós estamos na beira do Guaíba! Um rio... bom, não é um rio, é um estuário... a terra do Inter e do Grêmio! O Inter, de Gramado? O Grêmio, de Montevidéu? Pirou, né? Doce de leite? Cara, lá a gente come Mu-mu, desculpe!

E assim segue a gana de o pessoal querer se separar do Brasil.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Vai ser gauche na vida...

Foi Drummond que escreveu a frase do título, né? Chato pra caralho!

Pois nasci em Porto Alegre, tchê! Fui criado no complexo de bairros populares (gurizada de classe média baixa, média e alta; eu era/sou da casta média) Rubem Berta, limite com Alvorada. Até os 7 anos vivi no Leopoldina, e depois até os 14 no sub-bairro à frente, o Santa Fé. Se esse distrito gigante se separasse, dava uma cidade razoavelmente populosa e pobre.

Separatismo que está ligado ao DNA do gaúcho. Diferentes razões nos levaram a tentar uma separação do resto do Brasil. Impostos nos tempos do Império, interesses de estanceiros maçons que tinham terra no Uruguai, num tempo em que Rio Grande do Sul e o país vizinho eram quase a mesma bosta, diferenças culturais, bairrismo, preconceito e nariz empinado.

A publicidade se vale bastante do gauchismo. Fôlderes e campanhas na TV e na Internet enaltecem o orgulho pelas coxilhas e pelo meu pampa, pelos costumes/cultura e pelo sotaque adotado abaixo do Mampituba. E vendem bastante fingindo que são mais sulistas do que sua razão social pode sugerir.

É um terreno quase sagrado. É, na real: experimenta dar uma de fiasquento e falar mal do RS num Acampamento Farroupilha! Tu vira carne de churrasco.

O Gaúcho é um sujeito que se veste de uruguaio e francês, fala Português (mas que nem argentino), toma bebida italiana e vai a festas alemãs. Isso tudo num momento só. Com tanta mistura, parece limitado que usemos como música tradicional esse som de CTGs, que é um estilo que já sobrevive por si só, sem necessariamente fazer apologia a tradições. Nenhuma das músicas é cantadas em Espanhol, todas sem referências açorianas ou charruas ou colocadas de maneira tímida como china virgem. Frescura minha, eu sei.

É que essa alma castelhana é algo implantado pela Literatura. O gaúcho clássico deve a guaiaca a Simões de Lopes Neto, criador do eterno Blau Nunes, personagem que absorveu TODOS os valores atribuídos ao guasca médio. A folia projetada em volta de peões mestiços é grande demais. Passou dos limites do lógico. Mesmo sendo uma nação criada por índios desgarrados, negros, castelhanos perdidos, paulistas, italianos e alemães, com ou sem as virtudes propagadas pelas planícies do Sul, achamos ainda que somos só uruguaios. Isso mostra o quanto nosso orgulho é vazio na essência, apesar de ser divertido o facto de vermos a América de cabeça pra baixo.

Infelizmente, meu estado não está entre os mais desenvolvidos economicamente. Somos dependentes da força motriz do centro do país. E é por isso que se engana feio quem acha que sobreviveríamos autossuficientes numa utópica República do Pampa. O que julgamos roupa típica (a pilcha, composta por botas, bombacha, camisa, poncho no inverno, lenço e chapéu), é fantasia. Pro camponês uruguaio, é roupa de trabalho.

Dizem que o RS é o estado que mais lê. Olha, sou professor no interior e posso dizer que se essa estatística tem fundamento, temo pela quantidade de iletrados em outros estados. Cantamos em altos brados um hino que fala de uma luta de burgueses vs. Império e que acabou em empate: ninguém venceu, ninguém perdeu; a Revolução Farroupilha parou depois de um acordo.

Então, quando eu lembro do subúrbio da capital, que carrega um sotaque intermediário entre o interiorano e o bonfinesco, saco que cantamos de um jeito e nos imitamos de outro. Falamos tchê e bah!, mas as nuances de vocabulário e entonação nos diferenciam entre nós mesmos, por mais que o estereótipo tente uniformizar.

Se eu gosto do Rio Grande do Sul? Sim, sim, mas hoje mais pelo fato de lembrar seus irmãos culturais, o Uruguai e a Argentina. Como se fôssemos um pedacinho platino em pleno ziriguidum olelê tupiniquim.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Livre

Os avisos de "prejudicial à saúde" em bebidas e cigarros é o expoente máximo do que consideramos o livre arbítrio.

"A parada é ruim e faz mal... não estamos obrigando a usar. Tu quer? Bom... avisamos, hein?" E o cidadão vai lá e se afunda nas porcarias. Que estão ali, né? Compra se tu quer.

Por mais que o politicamente correto (já poderíamos escrever isso com letras maiúsculas, visto que é uma instituição) tente argumentar que o ser humano é um bom selvagem corrompido pelo Sistema, o cara ainda tem a chance de dizer 'não' pra alguma coisa.


Escrito sob efeito de uma Estrella Galicia geladíssima.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Definitivamente talvez

Primeira resenha sobre o Oasis (disco de lançamento), na Bizz de dezembro de 94.

Não precisa me agradecer.

"Você ainda acredita que uma banda que vem de Manchester (terra dos maiores pentelhos franjudos entediados do planeta) poderia ser a salvação do Rock n' Roll? Ainda mais quando o semanário britânico New Musical Express coloca o disco dos caras nas nuvens? 

Pela capa (com 'ponta' de Burt Bacharach) e pelas péssimas referências acima, você não desembolsaria nem 25 centavos por este CD, não é? Pois então agradeça a este serviçal por mais um favor prestado a seu bolso. Pode comprar tranquilo este Definitely Maybe, sem medo de ser ludibriado. Ele é honesto.

Oasis é um grupo que adora o palco, posa com os seus instrumentos e caga para o que a mídia pensa sobre eles. Isso não lhe cheira a Suede? Só que os caras merecem durar bem mais do que aqueles 'perobas' glitter.

Aqui há grooves de guitarras semi-acústicas sustentando as exímias composições de Noel Gallagher e aquela marca de quem leva a coisa realmente 'à sério'. Todas têm aquele caráter 'chapadão' típico do rock inglês.

Com certeza, não vão revolucionar porra nenhuma, como se anuncia por aí. É só mais uma banda que merece figurar na sua CDteca entre o Mudhoney e o Urge Overkill. O que já garante para eles uma cobertura com piscina no céu dos rockers."

Alexandre Rossi.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Popularidade fake

- ... e esqueci de dizer: muito bonita aquela foto que tu postou!
- Qual?
- A penúltima, com uma praia ao fundo. Que lugar era aquele?
- Ah, era em Cidreira, dia desses. Ficou realmente bonita... mas só deu 59 likes até agora.
- E desde quando isso conta alguma coisa?
- A mesma foto, igualzinha, no perfil da Mari deu 134!
- Psss... tá, e daí?
- E daí que parece que ela tá mais bonita, sei lá!
- Ai, ai... olha, Jana, eu entendo tua baita preocupação e até entendo tua lógica. Mas quer ver que, apesar de ter fundamento, tua lógica é perniciosa?
- Perni-o-quê?
- Saca: dos 59 likes que tu recebeu, digamos 40 sejam de guris. Certo?
- Certo.

- Os que não são veados (cerca de 35) querem, provavelmente, te comer. Certo?
- Hahaha, é... pior que é.
- Então, tu daria pra esses 35?
- Lógico que não!
- Provavelmente o plêiba pra quem tu quer dar nem curtiu ali... mas, enfim, desses 35, talvez só uns 2 ou 3 tenham a chance de sair com uma mulher linda que nem tu.
- Ai, brigada!
- E vê o caso da Mari. Se multiplicarmos proporcionalmente o número de gente que curtiu a foto dela, vamos ter uns 70 potenciais comedores da guria. Te pergunto (tu, que conhece ela): a Mari daria pra esses 70 caras?
- HAhaha, nem pensar! Fresca do jeito que é, se der pra 1 já vai ser lucro!

- Então, porra?! Que diferença prática tem se tu tiver 50 ou 100 likes na tua foto, se tu termina nem querendo satisfazer o machaiêdo que vai lá curtir? Só quer deixá-los na vontade?
- HahAHAha! Pois é...

- Prova cabal de que esse comportamento, o de provocar, o de deixar a galera babando e de ficar beiçuda por não ter tal número de 'legaizinhos', é absolutamente pernicioso
- Tá, não gostou da foto, é só dizer!
- Não, eu gostei... mas, enfim, não vou te comer mesmo.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Super Ego

- Quê?! Ah, com certeza prefiro uma guria vestida de prenda a uma vestida pra baile funk.
- Sério?
- Sério. Pó perguntá de novo pra mim.

Eu e meus diálogos com meu Outro Eu.

terça-feira, 5 de março de 2013

Flores embaixo do meu travesseiro


Dar flores. Um dos mais ardilosos argumentos materiais já inventados pelo homem. Provavelmente proposto por uma donzela-em-perigo:

- Lêidi, tu sabes que te amo!
- Oh, Lórdi, então me prova isso!
- Como poderei provar esse amor maior que o mundo que nutro por tua pessoa, Milêidi?
- Com um doce e bucólico buquê de rosas silvestres, nobre cavaleiro!
- Pfff... taqueopariu...

Mas eis que apesar do preço empobrecedor de trabalhadores-braçais que um amontoado de plantas tem, o troço volta e meia funciona. Sabe, sempre achei que essa parada fosse mó clichê (bom, não deixa de ser) e tentei comoventemente usar a quebra de padrões como marca própria.

Mas testei antes. Não é assim "Pá, tive uma ideia do caralho!", não. Testa-se a teoria em amplo período de tempo e em várias cobaias até chegar próximo da perfeição.

Comecei com a Fernanda, namoradinha que estudava francês. Ia visitá-la de moto na cidade ao lado e achava que em pouco tempo teríamos um relacionamento próspero e duradouro. Inovei: em vez de flores de floricultura, sementes de amor-perfeito. Ela plantando soaria como o cultivo do amor entre os dois. Não te parece genial? Pois é, pra mim parecia.

E Nandinha achou o máximo. Plantou mesmo, diz ela. O namoro durou duas semanas. 

Depois, testei com uma mocinha de longe, outro estado. Júlia era uma mulher interessante e que compreendia bem esses desvios de padrões. Num de nossos esporádicos encontros, lá fui eu com o mesmo pacotinho de amores-perfeitos. As sementes não vingaram, mas o namoro foi um pouco mais longe: 1 ano e 8 meses.

Acha que me dei por vencido? A parte alemã dos meus genes não deixa eu desistir fácil. A próxima era Laiana, e tentei essa parada de novo. Pacotinho de sementes da mesma flor.  Vamos combinar que amor-perfeito é bonitinho, né? Plantei junto com a guria, pra ter certeza. Tenho mão boa para fazer as plantinhas nascerem, tem que ver. Germinaram. O cachorro comeu tudo. Namoro que durou 5 meses.

Já abatido com isso, parti pra outro teste. Mencionei o assunto 'flores' com Isa:

- Bah, não gosto de flores...

Cobaia perdida. Nem o fato de eu ter feito um jasmim nascer de uma flor adiantou. Namoro durou 2 anos, com mais um ano de idas e vindas. Nem insisti com as sementes.

Entende? Eu precisava de algo que compensasse o complexo de feiura que carrego desde o 2° grau. Um dia vi uma lista como nomes de guris na mesa de duas meninas interessantes. Inocente, acreditei que fosse "Os Caras Mais Legais da Sala".

Não era. Fiquei em vice no campeonato interno dos mais feios. Perdi o título pro colega que sentava ao meu lado. Foda.

Com a próxima namoradinha, alterei levemente a estratégia. No lugar de um envelopinho com girinos de flores, um vasinho com uma já crescida e devidamente cultivada. Uma violeta, para desequilibrar a equação. Muito bem recebido o presente, pouco deve ter durado na mesa de trabalho dela. Assim como a relação: três meses.

Mesmo sendo brasileiro (ou germânico, como antes admitido), quase larguei de mão a pesquisa de campo. Não é fácil ter uma ideia fofa de cultivo de um romance e ser solenemente ignorado nas boas intenções. Então, seria mesmo o tal buquê de rosas a grande arma para atingir em cheio os corações femininos? Não, não podia ser.

Com Júlia busquei outra alternativa: uma florzinha simples, dessas que dão em árvore e tu estoura com os dedos. É mó charme a parada! E é meio sulamericano: os ianques não conhecem, vejam só. Então, dei uma desses botões pré-fechados para a moça, uma linda moça, e ela adorou!

Relacionamento? Dias, não mais que isso.

Quando vê, o esquema é usar os já defasados carros de mensagem na porta do trabalho da pretendida:

- Atenção, Fulana! Essa... é uma mensagem de amor!
(entra o som do clarinete de Kenny G ou o tema de Titanic e sai eu do Celta com rosas brancas polvilhadas de purpurina e cola cintilante e um texto padrão ao fundo)

Há alguma estratégia para as oportunidades vindouras? Nem eu sei. Basicamente esperarei que os discos de vinil aqui me deem alguma luz sobre como proceder nessa dura batalha pela arma perfeita na arte da conquista. Até lá, sem bombons, flores e cachorros-quentes.